Algumas coisas que parecem antigas tradições, na verdade, são apenas modismos que, em menos de uma geração, deverão passar.
O
cajuzinho, por exemplo, um docinho a base de amendoim. Já foi condenado,
abolido, eliminado de qualquer festa, de qualquer ambiente. Tudo por conta de
um programa de TV em que um personagem muito querido pelo público abominava
semanalmente o cajuzinho, alegando que o doce era coisa de pobre. Hoje já não
há tanta aversão ao cajuzinho. O programa saiu do ar, o personagem é lembrado
como lenda e novas gerações já tratam o cajuzinho pelo critério “gosto-não
gosto” e não pela obrigação de repudiá-lo diante de seu grupo social.
Hoje
em dia duas instituições estão na mira, se não dos cancelamentos, pelo menos da
“aversão pra Internet ver”: o pai e o Natal.
Do
pai pode ser que eu me ocupe em outro texto algum dia. Hoje quero falar do
Natal. Atualmente parece que é uma obrigação social falar mal da uva-passa e da
reunião de parentes. Todos pintam o Natal como uma festa a ser evitada porque
nela a tal da família está presente mais do que nunca. Justamente o que fazia
dos Natais mais antigos a festa mais esperada por todas.
Não
consigo entender esse repúdio à família assim como não entendo gente que passa
o ano comendo peixe cru e alfafa reclamando de uma coisinha pequenininha e doce
como a uva-passa.
Eu já
participei de muitos Natais. No decorrer dos meus mais de 70 anos, já
participei também de muitas famílias.
Já
tive Natal com meu pai, minha mãe, minha irmã e meus avós maternos. Depois tive
Natais com minha mãe, minha primeira esposa e minha primeira filha. Em outro
ano foi com essa mesma esposa, essa mesma filha, só que com minha sogra, meu
sogro, minhas cunhadas e seus namorados. Anos depois, em outro casamento, o Natal
era com minha esposa, minha primeira filha, minhas outras duas filhas e amigos.
Às vezes na casa da minha sogra, às vezes na casa de uma tia da minha mulher,
às vezes na minha casa. Natais fantásticos onde, além da família imediata
reunida, surgiam primos, tios, parentes em todos os níveis. E amigos solitários
que não tinham pra onde ir.
Atualmente
meus Natais são com minha mulher, tias, tios e primos dela, minhas três filhas,
os respectivos cônjuges, o filho de um dos cônjuges, meus seis netos, meu
bisneto, meus irmãos. Nem todos todo ano, mas todos os anos muitos deles. E
continuamos recebendo amigos que não têm onde passar essa festa. Este ano ainda
contamos com a família do marido de uma das netas, a mãe do meu bisneto.
Em
nenhuma dessas festas aconteceu nada que justificasse evitar o ano seguinte.
Uma família gigantesca, com gente das mais variadas origens, dos mais variados
princípios, das mais variadas religiões e das mais variadas ideologias. Não
importa! Acima de tudo isso está a ideia de que somos uma família, gostamos
mais de uns do que de outros mas aprendemos a gostar, nem que seja um
pouquinho, de todos.
É
sempre uma alegria rever gente que faz tempo que não vemos, continuar vendo
gente que vemos todos os dias, rir, fazer piadas, comer de forma desumana e
deseducada, esparramar presentinhos uns pros outros, coisas pequenas que não
significam “veja o dinheirão que estou gastando com você”. Significam apenas
“você também foi lembrado”.
Não
gosto desse novo Natal das outras pessoas onde o importante é declarar
publicamente o quão sacrificante é estar reunido em família. Claro, isso vai
passar. Como passou o ódio ao cajuzinho. Falar mal do Natal e de estar com
parentes é só um modismo. Uma “trend”, como querem alguns. É importante dizer
essas coisas publicamente, de preferência em redes sociais, como um compromisso
a ser cumprido com a tribo.
Vai
passar. E as pessoas poderão voltar a dizer que, mesmo com alguma discussão,
alguma chateação, alguma contrariedade, no final das contas, foi bom estarem
todos reunidos. E que tiveram um Feliz Natal.
Talvez
já neste ano que se inicia. Afinal, será um Ano Novo e podemos dar um jeitinho
pra que ele seja pacífico, gratificante e próspero.
Sejamos
felizes!



