quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

TRENDS DE FIM DE ANO

 Algumas coisas que parecem antigas tradições, na verdade, são apenas modismos que, em menos de uma geração, deverão passar.

O cajuzinho, por exemplo, um docinho a base de amendoim. Já foi condenado, abolido, eliminado de qualquer festa, de qualquer ambiente. Tudo por conta de um programa de TV em que um personagem muito querido pelo público abominava semanalmente o cajuzinho, alegando que o doce era coisa de pobre. Hoje já não há tanta aversão ao cajuzinho. O programa saiu do ar, o personagem é lembrado como lenda e novas gerações já tratam o cajuzinho pelo critério “gosto-não gosto” e não pela obrigação de repudiá-lo diante de seu grupo social.

Hoje em dia duas instituições estão na mira, se não dos cancelamentos, pelo menos da “aversão pra Internet ver”: o pai e o Natal.

Do pai pode ser que eu me ocupe em outro texto algum dia. Hoje quero falar do Natal. Atualmente parece que é uma obrigação social falar mal da uva-passa e da reunião de parentes. Todos pintam o Natal como uma festa a ser evitada porque nela a tal da família está presente mais do que nunca. Justamente o que fazia dos Natais mais antigos a festa mais esperada por todas.

Não consigo entender esse repúdio à família assim como não entendo gente que passa o ano comendo peixe cru e alfafa reclamando de uma coisinha pequenininha e doce como a uva-passa.

Eu já participei de muitos Natais. No decorrer dos meus mais de 70 anos, já participei também de muitas famílias.

Já tive Natal com meu pai, minha mãe, minha irmã e meus avós maternos. Depois tive Natais com minha mãe, minha primeira esposa e minha primeira filha. Em outro ano foi com essa mesma esposa, essa mesma filha, só que com minha sogra, meu sogro, minhas cunhadas e seus namorados. Anos depois, em outro casamento, o Natal era com minha esposa, minha primeira filha, minhas outras duas filhas e amigos. Às vezes na casa da minha sogra, às vezes na casa de uma tia da minha mulher, às vezes na minha casa. Natais fantásticos onde, além da família imediata reunida, surgiam primos, tios, parentes em todos os níveis. E amigos solitários que não tinham pra onde ir.

Atualmente meus Natais são com minha mulher, tias, tios e primos dela, minhas três filhas, os respectivos cônjuges, o filho de um dos cônjuges, meus seis netos, meu bisneto, meus irmãos. Nem todos todo ano, mas todos os anos muitos deles. E continuamos recebendo amigos que não têm onde passar essa festa. Este ano ainda contamos com a família do marido de uma das netas, a mãe do meu bisneto.

Em nenhuma dessas festas aconteceu nada que justificasse evitar o ano seguinte. Uma família gigantesca, com gente das mais variadas origens, dos mais variados princípios, das mais variadas religiões e das mais variadas ideologias. Não importa! Acima de tudo isso está a ideia de que somos uma família, gostamos mais de uns do que de outros mas aprendemos a gostar, nem que seja um pouquinho, de todos.

É sempre uma alegria rever gente que faz tempo que não vemos, continuar vendo gente que vemos todos os dias, rir, fazer piadas, comer de forma desumana e deseducada, esparramar presentinhos uns pros outros, coisas pequenas que não significam “veja o dinheirão que estou gastando com você”. Significam apenas “você também foi lembrado”.

Não gosto desse novo Natal das outras pessoas onde o importante é declarar publicamente o quão sacrificante é estar reunido em família. Claro, isso vai passar. Como passou o ódio ao cajuzinho. Falar mal do Natal e de estar com parentes é só um modismo. Uma “trend”, como querem alguns. É importante dizer essas coisas publicamente, de preferência em redes sociais, como um compromisso a ser cumprido com a tribo.

Vai passar. E as pessoas poderão voltar a dizer que, mesmo com alguma discussão, alguma chateação, alguma contrariedade, no final das contas, foi bom estarem todos reunidos. E que tiveram um Feliz Natal.

Talvez já neste ano que se inicia. Afinal, será um Ano Novo e podemos dar um jeitinho pra que ele seja pacífico, gratificante e próspero.

Sejamos felizes!

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SE MEU PAI FOSSE VIVO


Se meu pai fosse vivo, hoje teria noventa e sete anos.

Se meu pai fosse vivo, talvez eu já tivesse contado pra ele da leve sensação de vingança que tive quando o coloquei pra conversar com a bisneta que ele não conhecia. Quando eu era criança, nos anos sessenta, ele vivia rindo dos filmes de ficção científica de que eu gostava. Dizia que aquela comunicação com imagens de um veículo pra outro jamais seria possível porque não haveria onde colocar a câmera. Ele tinha sido um homem de televisão e as câmeras que conheceu eram enormes, exigiam três homens para serem movidas e operadas. Quando meu pai fez oitenta anos, fiz o contato dele com a bisneta a quatrocentos e oitenta quilômetros de distância usando o celular que estava no meu bolso!

Se meu pai fosse vivo, talvez eu tivesse comentado, em algum momento, o fato de eu quase ter me tornado um delinquente aos doze anos por não aguentar a pressão de ser o filho de um homem tão importante quanto ele foi quando eu era apenas mais um moleque na rua, no meio de tantos outros sem pais famosos.

Se meu pai fosse vivo, talvez eu já tivesse declarado a mágoa que carreguei durante anos da minha vida por causa de acusações de coisas que não fiz, acusações que vinham do nada apenas porque ele não admitia a ideia de ser enganado por um moleque vinte e seis anos mais novo do que ele. Acusações preventivas!

Se meu pai fosse vivo, talvez eu contasse pra ele os truques que usei para que nem ele nem minha mãe jamais soubessem o que um escreveu pro outro depois da separação. Minha mãe mudou-se pra São Paulo. Meu pai continuou em Santos. E eu, com doze anos, fazia quinzenalmente o percurso entre uma cidade e outra levando cartas cheias de mágoas e histórias não resolvidas, acusações e imputações de culpas de ambos os lados pra ambos os lados. Eu abria as cartas durante a viagem. Lia tudo. Pegava só o que interessava (“Seu filho precisa de uma blusa de frio nova”), rasgava a carta e jogava no meio da via Anchieta. Naquele tempo, década de sessenta, o trajeto São Paulo-Santos era feito só pela Anchieta. E podíamos abrir as janelas dos ônibus antes de entrarmos na era congelante e tóxica do ar condicionado obrigatório.

Tanta coisa eu faria, diria, revelaria ao meu pai se ele fosse vivo hoje. Mas faria tudo isso em meio às gargalhadas que sei que meu pai daria comigo. Faria tudo isso sentado a uma mesa com um cinzeiro e uma cerveja gelada em cima dela. Pra nós dois. Como fizemos tantas vezes depois que me tornei adulto. Nos últimos vinte anos da vida dele fomos nos aproximando e acabamos ficando tão unidos, mesmo morando em cidades diferentes, que readquiri o direito e o orgulho de um título meio em desuso: primogênito.

Nos últimos vinte anos da vida dele, fui diversas vezes a Avanhandava, onde ele resolveu viver até morrer. Cidade pequena, todos se conhecem e o velho Machado se tornou um homem respeitado e muito querido por lá. Isso respingava em mim quando eu ia visitar. Voltava de lá com uma carga renovada na minha bateria de orgulho de ser quem sou e de ser filho de quem sou.

Um dono de estúdio com matriz em Santos um dia me perguntou se eu era parente do Nelson que tinha sido radialista na baixada nos anos sessenta e setenta. Ao saber que eu era filho dele, disse, emocionado: “Conheci seu pai quando eu e ele éramos jovens. Um cara excepcional! Se existissem mais homens como ele, o mundo seria um lugar bem melhor!” – Isso ainda tive tempo de contar pra ele quando era vivo.

Se meu pai fosse vivo, eu daria um jeito de trazê-lo pra São Paulo neste mês de dezembro. Na nossa mesa de Natal tão cheia de gente haveria mais uma pessoa: um velho de noventa e sete anos de idade a quem eu beijaria, declararia meu amor, agradeceria as coisas que me ensinou mesmo sem perceber que estava ensinando e todos ficaríamos preocupados com a saúde dele enquanto ele faria uma piada sobre o assunto dando um gole na cerveja e uma tragada no cigarro.

Se meu pai fosse vivo eu faria questão de deixar claro o quanto ele estaria sendo a cereja do bolo (ou a fruta cristalizada do panetone) pra todos nós no nosso definitivamente Feliz Natal!

sábado, 29 de janeiro de 2022

EXTRA! EXTRA!

        Guerra, fome, paz, amor, ódio, trégua e tudo, afinal.

        No preto no branco, gritam alto as letras de um jornal.

Assim começava uma música que compus com meu amigo Carioca (o nome dele era Adilson, mas ninguém o chamava assim). Década de 70, éramos muito jovens e a música era para um festival estudantil. Naquele tempo havia muito disso. Escolas organizavam festivais dos quais participavam estudantes de todas as outras escolas.

Fazíamos músicas, escrevíamos textos, criávamos peças teatrais pelo simples fato de fazer. Pela necessidade de dizer alguma coisa. Eram tempos em que coisas precisavam ser ditas. Coisas boas e coisas ruins.

Decidimos fazer uma música que falasse de jornais, genericamente. Chamamos a música de Extra! Extra!

Eu gostava de ler notícias. O Carioca gostava mais do que eu. E muitos amigos nossos achavam bobagem adquirir as informações que vinham de jornais. Mas jornais e revistas eram, basicamente, o meio mais importante de informações sobre o mundo, sobre o país, sobre a cidade, sobre nós. Havia as TVs e o rádio, mas os jornais traziam as notícias mais esmiuçadas, traziam análises, controvérsias. Sim, havia controvérsias. Cada jornal tinha sua linha editorial, suas preferências oficiais e nós tínhamos a chance de ler dois jornais diferentes pra ter uma visão mais ampla do fato, com análises profissionais de vários lados.

Nossa música falava de tudo o que um jornal trazia até nós: a notícia local de um viaduto que caiu, a notícia mundial sobre a Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos, sobre a guerra quentíssima entre Vietnã e Estados Unidos, a fofoca sobre quem está namorando quem e quem se separou de quem na TV e em Hollywood, palavras cruzadas, tirinhas de quadrinhos, horóscopo, previsão do tempo, novas doenças, novas curas, algumas crônicas maledicentes e outras bem humoradas. Tudo dentro daquelas páginas, diariamente. Você recebia tudo em um pacote só.

O tempo passou e atualmente as pessoas se informam mais através de redes sociais do que por qualquer outro meio. Parece ótimo, muito mais gente recebendo informações, as coisas chegando mais imediatamente, não é preciso esperar a edição de amanhã pra saber o que aconteceu na Síria há meia hora.

Os únicos problemas são as fontes e o algoritmo.

As fontes, em geral, são amigos que repassam coisas que foram enviadas por outros amigos que ouviram amigos dizerem. Nada profissional. Nada confiável. Mas há uma tendência a se acreditar em tudo que corrobore nossa opinião pré-formada sobre qualquer assunto.

O algoritmo percebe as coisas que você lê ou recebe e, em pouco tempo, você não tem acesso a mais nada que não seja aquela ideia, aquela opinião, aquele suposto fato. Isso gera a impressão de que estamos certos e de que a maioria está a nosso favor. Na maior parte das vezes isso não é verdade.

Já se sabia lá no passado que boa notícia não vendia jornal. Transpondo pra hoje, sabemos que boa notícia não gera clique. A diferença é que, no jornal, junto com a má notícia bombástica de primeira página, vinha uma porção de boas notícias lá dentro. Você acabava lendo tudo no pacote.

Hoje a má notícia gera um clique que abre o texto. As pessoas leem três ou quatro linhas e pronto. Já se acham informadas o suficiente pra emitir um comentário, único real motivo pra terem aberto a notícia: escrever algo raivoso com ares de quem tem informações extras que ninguém mais tem. Afinal, um primo que trabalha na empresa que fornece papel higiênico para aquela estatal soube de segredos e repassou no grupo da família do WhatsApp. Além disso, se houver algum link no corpo daquela notícia ruim, ele levará a outra notícia ruim. Não há mais o alívio de, no meio da confusão, se ler uma notícia agradável, uma tirinha engraçada ou mesmo aliviar a tensão com palavras cruzadas. A rede precisa da tensão em alta porque ela gera cliques e comentários. Gera acessos.

Me pego sendo velhinho. Pensando em outros tempos. Eram tempos melhores ou eu era jovem demais pra perceber como eram ruins? O mundo ficou tão mau assim que só temos jogadores acusados de estupro, compositores cancelando as próprias músicas, comentários idiotas sobre qualquer coisa, racistas, machistas, homofóbicos, antissemitas, xenofóbicos em geral, mortos na pandemia, mortos nas enchentes, mortos nos desabamentos, mortos em tiroteios, mortos na guerra, mortos no shopping, mortos, mortos, mortos? Não há mais notícias boas, agradáveis, divertidas?

Às vezes sinto falta do pacote completo que os jornais traziam. Eles ainda estão por aí. Mas capitulei. Me entreguei aos novos tempos. É difícil eu pegar um jornal pra ler atualmente.

Me lembro de como nossa música terminava:

        Há um mundo sem igual e a vida é bem real

        nas palavras de um jornal. 

        Sento e sinto uma vontade louca de reler meu jornal.

 

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

SEIMOR PLOOTH E O ATROPELAMENTO SEM CARRO

    – Plooth. Seimor Plooth. Investigador particular.
    O Sargento Anacleto, doze anos de polícia, olhou pro baixinho forte, corpo treinado em academia e, enquanto pegava o cartão oferecido pelo mini atleta, não acreditou no nome. Pediu um documento e verificou que suas suspeitas tinham fundamento. O baixinho tinha uma cara brasileira demais pra ter nome estrangeiro. Na verdade, se chamava Analgésio Picanso.
    – Adotei um nome de guerra, sargento – explicou em voz baixa o detetive. – Na escola só me chamavam de Anal e a redução do sobrenome também não ajudava muito.
    O sargento achou graça, mas não gostou do som americano do nome inventado. Só o soldado Ataíde entendeu o anagrama de dois nomes, mas isso só foi conversado muito depois do evento.
    Seimor continuou com sua solução do crime.
    – Como eu ia dizendo, sargento, o caso está resolvido.
    – Como assim, caso resolvido? Isso foi um acidente, não foi? Um atropelamento?
    – O marido continua não conseguindo falar. Só chora. – Ataíde informou de onde estava, uns quatro ou cinco passos de distância.
    Um senhor de uns setenta anos chorava e só conseguia balbuciar “Bateu nela... Fugiu... Bateu nela...”
    Domingo. Comecinho da noite. Esquina da rua Eduardo Prado com a rua Barra Funda. Dia e hora de quase nenhum movimento. Rua deserta. No chão, caída ao longo da calçada, com as pernas estendidas no asfalto, uma senhora com idade próxima à do homem. Um vestido simples com alças estreitas presas aos ombros, um sapato com salto baixo em um dos pés. O outro sapato a pouca distância do corpo, fora da calçada. Uma bolsa média, meio aberta, ainda presa pela alça ao braço esquerdo. Os cabelos seriam totalmente brancos se não estivessem tingidos de vermelho pelo sangue que fluía da cabeça e se espalhava pela sarjeta.
    – É claramente mentira, sargento. Basta usar um pouco as pequeninas células cinzentas pra perceber o que houve.
    O soldado Ataíde teve sua primeira pista quanto ao nome do detetive nesse momento. A segunda veio um pouco mais tarde.
    – Bateu nela e fugiu... É o que o marido diz. Mas onde está o carro? E onde estão as marcas no asfalto? Vidro quebrado de um farol ou de uma lanterna? Nada! O ferimento é na cabeça. Além dele, existe apenas esse pequeno hematoma no ombro. Muito pequeno pra ter sido feito por um automóvel. Basta usar a observação pra ver que não houve atropelamento. Então o marido está mentindo. E só os culpados mentem. Eles devem ter brigado, ele deu um soco no ombro dela, daí o hematoma. A mulher perdeu o equilíbrio, caiu sentada com as pernas pra fora da calçada. Ele veio por trás e bateu na cabeça dela com alguma coisa pesada e a matou. Agora só falta ao senhor e à sua equipe encontrar o que foi usado como arma. Não deve estar longe porque quando eu passei e parei, tinha acabado de acontecer. Fui eu que liguei pra vocês.
    – Mas olha só aquele pobre senhor. Está em desespero. O que você está dizendo é muito improvável.
    – Sargento, um atropelamento é impossível. E depois que eliminamos o impossível, o que sobra, mesmo que seja improvável, é a verdade.
    Foi a segunda pista pro Ataíde, grande leitor de livros de mistério.
  Sargento Anacleto, claro, não levou a sério nada do que Seimor disse, mas agradeceu a colaboração, isolou a área onde estava o corpo e pediu pra levarem o marido pra outro lugar onde ele pudesse se acalmar e contar o que realmente aconteceu. Seimor se despediu dizendo ao sargento que, caso fosse comentar sua solução do crime, não deixasse de soletrar seu nome de guerra direito.
    – Seimor Plooth. Como está no cartão. Vai ser bom pros negócios!
    Não muito longe dali, na avenida Rio Branco, um jovem de uns vinte anos encostava sua bicicleta e entregava cinco celulares pra um receptador. É uma prática na região. As bicicletas passam em velocidade por pessoas incautas que falam ao celular. Num gesto preciso e rápido, arrancam o celular da mão da vítima e seguem velozes pra longe. Ninguém consegue pegá-los.
    – Consegui esses hoje. O último foi maluco, tá ligado? A véia tava na beira da calçada falando no celular. Quando eu tava chegando, ela deu um passo, acho que ia atravessar, tá ligado? O guidão da bike bateu no ombro dela, ela girou que nem um pião e caiu de cabeça na guia. Eu peguei o celular no giro, tá ligado? Esse devia valer mais!
    O sargento Anacleto chegou à conclusão real depois de conversar com o marido que estava uns passos atrás da esposa enquanto ela conversava com o filho ao celular.
    Seimor Plooth ainda acredita que desvendou mais um crime misterioso da grande e fria metrópole. Tudo estava muito claro para ele. 
    – Elementar, mon ami! 

terça-feira, 6 de abril de 2021

CRIATURAS

 

Todas as noites, ali pelas três e meia da madrugada, Alceu acordava, tomava um
café, acendia um cigarro e se sentava à mesa da sala para ler um pouco. A mesa para seis pessoas ficava numa ponta da sala. Sentado ali, Alceu via o sofá, as poltronas, a TV e, na parede oposta, a janela.

Naquela noite, sobre a mesa, havia restos do jantar. A família combinou de recolher e limpar tudo logo pela manhã. Alguns copos contendo refrigerantes, outros restos de cerveja. Uma caixa de medicamentos de onde a esposa de Alceu havia caçado o remédio costumeiro para sua cólica mensal completava a bagunça sobre a mesa. Alceu afastou dois pratos e um copo pra conseguir um pequeno espaço pro cinzeiro e pro livro.

Ao levantar a cabeça, viu a coisa vindo pela janela. Era arredondada, do tamanho de uma bola de futebol. Por toda a superfície da criatura esférica havia protuberâncias. Pequenas trombas com o que pareciam ventosas nas pontas. A criatura se movia na direção da mesa emitindo um som pelas trombas que lembrava o ruído que se faz ao sugar o último gole de alguma coisa através de um canudinho.

O susto foi substituído por um grande medo quando viu que não era uma criatura só. Várias invadiram a sala. Todas fazendo aquele barulho. Todas indo em direção à mesa onde ele estava! Alceu começou a sentir falta de ar.

O medo virou pânico quando percebeu que o barulho produzido era realmente de sucção. As criaturas estavam sugando o ar da sala. A falta de ar não era provocada pelo medo. O ar estava mesmo acabando!

Alceu tentou fugir mas se moveu com lentidão, como se estivesse nadando em gelatina. As criaturas começaram a subir na mesa. Alceu quase não respirava mais, a sensação era de que não havia mais ar à sua volta. O peso das criaturas sobre a borda fizeram a mesa virar. Restos de arroz, fragmentos de carne, vegetais crus e cozidos foram despejados junto com guaraná, cerveja, analgésicos, antibióticos, antipiréticos, cremes, xaropes, tudo o que havia na caixa de remédios. As criaturas retrocederam alguns centímetros. Alceu notou a reação e, mesmo com movimentos lentos, quase rastejando, chegou ao ponto do chão onde tudo estava misturado. Foi pegando itens, dois a dois, três a três, estirando os braços, até que acertou uma combinação que fez as criaturas se afastarem mais um pouco. Fez um bolinho com aqueles itens e atirou sobre uma delas. A bola cheia de pequenas trombas emitiu um silvo e explodiu! Alceu juntou novamente aqueles ingredientes, uns sólidos, outras líquidos, lançou sobre outra criatura e nova explosão se produziu! Cada ítem daquele devia conter alguma coisa que, combinada com os outros, eliminava por completo os invasores.

Nesse instante, Alceu sentiu uma dor intensa começar pela sua boca, passar pela garganta e atingir seu peito. De repente havia ar no mundo. Ele estava respirando!

*****

A enfermeira não ouviu. Quem informou ao médico foi a técnica em enfermagem que a auxiliava. O médico não levou a sério. Era impossível que Alceu tivesse falado alguma coisa antes de ser intubado. Estava extremamente sedado e sob efeito de bloqueadores neuromusculares. Coma induzido. Mas ela jura que ouviu o paciente do leito 19 balbuciar um segundo antes de introduzirem o tubo.

Alceu foi curado. Voltou pra casa. Não se lembrava de nada. Nem do sofrimento, nem dos remédios, nem do tubo, nem mesmo de sonhos ou visões que teve. Lamentavelmente, também não se lembrava da combinação certa que poderia ser uma pista pra acabar com o pesadelo dos que estavam acordados. Nem se lembrava de ter murmurado quando a técnica em enfermagem se aproximou dele:

- É assim que eles morrem!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

CARA DE FESTA



Ano Novo tem cara de festa.

Ano Novo pra quem, como eu, faz aniversário em janeiro tem cara de festa da vitória. Eu e ele conseguimos completar mais uma maratona que durou 12 meses.

Ano Novo pra quem, como eu, faz aniversário em janeiro, em tempos como esses em que quase todos os noticiários informam que temos duzentos mil mortos pelo mal do momento e poucos noticiam um milhão e trezentos mil mortos por todas as outras coisas, um Ano Novo assim mostra, num primeiro momento, a cara de uma eufórica festa da vitória, mas não de uma jornada esportiva. Vitória em uma guerra. O prêmio não é uma taça. O prêmio é estar vivo! Mas isso é num primeiro momento.

Logo em seguida, como em todo começo de ano, nos entregamos a reflexões. Desta vez não só quanto à necessidade de parar de fumar na semana que vem ou de começar academia e dieta na próxima segunda.

Primeiro alguns pensam que muita gente morreu, mas muita gente nasceu. Praticamente ninguém comenta os três milhões de crianças que nasceram em 2020. Gente nascendo nunca mais foi notícia depois do suspeitíssimo interesse de Herodes pelo assunto no ano 1. Gente morrendo sempre gera comoção e uma ânsia por informações gentilmente oferecidas por emissoras, blogs, sites, vídeos, jornais, revistas e qualquer outro meio através do qual possamos satisfazer uma temporária morbidez que nos acomete ao sabermos de males que estão atingindo os outros e não a nós.

A percepção de que pode nos atingir também a qualquer momento começa a nos causar uma preocupação seletiva. Ela faz com que tenhamos muito medo daquele mal fartamente divulgado e nos esqueçamos por completo de todos os outros males que podem nos matar e que continuam em vigência. Não precisamos mais olhar pros dois lados da rua antes de atravessar desde que estejamos usando máscara.

Ano Novo pra quem, como eu, faz aniversário em janeiro, em tempos como esses, também é motivo para orgulho. Mesmo com tudo acima de tudo e tanta coisa acima de todos, apesar do que nos acometeu, nos preocupou, nos entristeceu, nos empobreceu física, econômica e emocionalmente, nos arrasou neste ano que termina, ainda assim estamos aqui. Vivos. Em pé. Resistindo. Principalmente acreditando.

Continuamos a acreditar que as coisas podem mudar e que, ao mudar, farão isso pra melhor. Por acreditar, até nos movemos em direção a isso, tentamos ajudar essa mudança a acontecer. Mesmo sem saber, colaboramos para que haja mudanças. E acreditar é o embrião e o alimento da esperança.

Sendo assim, como esperança é o que temos, que se espalhe a esperança de que 2021 seja um ano de soluções, de resoluções, de tomadas de posição, de atitudes e, principalmente, um ano de vida! Que seja justificada a esperança de que essa causa mais noticiosa de mortes seja debelada, sim, mas que as outras, a bala perdida, o trânsito, os bombardeios pelo mundo, os milhares de doenças fatais, o enfarto fulminante, a poluição, o câncer, o desmatamento, a violência, a AIDS, os preconceitos, que tudo isso, se não desaparecer, pelo menos se reduza.

Que este novo ano não precise, lá no fim, de uma sensação de guerra vencida.

Que este novo ano, lá no fim, não dê troféu a ninguém porque não houve uma maratona.

Que este novo ano, enfim, apenas tenha cara de festa.

Todos os dias.

Mesmo pra quem não faz aniversário em janeiro.

domingo, 29 de novembro de 2020

ORIGEM

 


        Aí ele acordou...

Levantou-se e foi até a sala. Viu copos e pratos sobre a mesa, restos de pernil, algumas taças com vestígios de mousse de manga. Em volta da árvore enfeitada, indícios do que tinha sido a noite anterior, a alegria das crianças rasgando em tiras papéis de presentes. A festa de Natal havia passado.

Na cozinha, colado na garrafa térmica a qual todos sabiam que ele iria procurar assim que acordasse em busca do reconfortante gole de café que, junto com o subsequente primeiro cigarro do dia, traria equilíbrio ao pobre cérebro confuso depois de uma festa, havia um bilhete: “Não quis acordar você. Fui passear no parque com as crianças. Voltaremos depois do almoço.”

O café e o cigarro não ajudaram na confusão mental que o bilhete causou. No parque? Com as crianças? E o isolamento? E a pandemia?

Ligou a TV e as notícias deram um arremate na perplexidade. Falava-se de política, de esporte, de eventos pós-natal, mas nada sobre Covid.

Após o estranhamento inicial, passou a prestar atenção ao que era dito. Em um canal noticiaram as inaugurações de um novo hospital e três novas escolas marcadas para dia dois de janeiro. Em outro, um programa de debate político com pessoas que ele não conhecia mas que, claramente, eram de espectros bem opostos. Mas ninguém alterava a voz, discutiam-se ideias e propostas. Mudou de canal e, em um programa de variedades, comentava-se sobre o Natal em um bairro mais afastado, onde prefeitura e empresas da cidade se aliaram para prover uma ceia e presentes pras crianças cujas famílias eram as últimas que ainda não tinham entrado no novo programa de empregos, coisa que, pelo que estavam dizendo, ocorreria, no máximo, na metade de janeiro. Em um canal religioso, viu, atônito, um pastor evangélico, um monge budista, um hindu, um padre, um rabino, um imã e um babalaorixá deliberando em que pontos e a que nível eles poderiam colaborar uns com os outros em causas sociais.

Sem saber o que estava acontecendo, acessou a Internet e ali viu a criação de postos de saúde, a ampliação de transportes públicos, anúncios de medicamentos a preços bem acessíveis contra males cuja cura nem se antevia.

Um pensamento maluco surgiu: “Por quanto tempo eu dormi?”.  Mesmo se achando idiota, foi ver a data. No mesmo instante começou um pronunciamento de fim de ano do Presidente da República.

“Não é possível... Estamos em...” e, antes de terminar o pensamento começou o pronunciamento. “E o presidente é o...”

Aí ele acordou.

Os restos da festa eram os mesmos, mas a esposa e os filhos estavam pela casa esperando que ele levantasse pra irem visitar a tia. Iam levar o presente dela. De carro. Todos de máscara. Estavam seguros.

Ele tomou o café, fumou o cigarro, colocou a máscara e saíram. Ele ainda estava um pouco confuso, mas, por baixo da máscara havia um sorriso. Um sorriso meio esperançoso. Tudo tinha sido tão real que poderia muito bem acontecer. As coisas podiam ficar como ele viu no sonho que teve. Ou não tinha sido um sonho e agora é que ele estava sonhando? E se tivessem sido dois sonhos e a verdade fosse uma terceira opção?

Aí ele acordou.