quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

TRENDS DE FIM DE ANO

 Algumas coisas que parecem antigas tradições, na verdade, são apenas modismos que, em menos de uma geração, deverão passar.

O cajuzinho, por exemplo, um docinho a base de amendoim. Já foi condenado, abolido, eliminado de qualquer festa, de qualquer ambiente. Tudo por conta de um programa de TV em que um personagem muito querido pelo público abominava semanalmente o cajuzinho, alegando que o doce era coisa de pobre. Hoje já não há tanta aversão ao cajuzinho. O programa saiu do ar, o personagem é lembrado como lenda e novas gerações já tratam o cajuzinho pelo critério “gosto-não gosto” e não pela obrigação de repudiá-lo diante de seu grupo social.

Hoje em dia duas instituições estão na mira, se não dos cancelamentos, pelo menos da “aversão pra Internet ver”: o pai e o Natal.

Do pai pode ser que eu me ocupe em outro texto algum dia. Hoje quero falar do Natal. Atualmente parece que é uma obrigação social falar mal da uva-passa e da reunião de parentes. Todos pintam o Natal como uma festa a ser evitada porque nela a tal da família está presente mais do que nunca. Justamente o que fazia dos Natais mais antigos a festa mais esperada por todas.

Não consigo entender esse repúdio à família assim como não entendo gente que passa o ano comendo peixe cru e alfafa reclamando de uma coisinha pequenininha e doce como a uva-passa.

Eu já participei de muitos Natais. No decorrer dos meus mais de 70 anos, já participei também de muitas famílias.

Já tive Natal com meu pai, minha mãe, minha irmã e meus avós maternos. Depois tive Natais com minha mãe, minha primeira esposa e minha primeira filha. Em outro ano foi com essa mesma esposa, essa mesma filha, só que com minha sogra, meu sogro, minhas cunhadas e seus namorados. Anos depois, em outro casamento, o Natal era com minha esposa, minha primeira filha, minhas outras duas filhas e amigos. Às vezes na casa da minha sogra, às vezes na casa de uma tia da minha mulher, às vezes na minha casa. Natais fantásticos onde, além da família imediata reunida, surgiam primos, tios, parentes em todos os níveis. E amigos solitários que não tinham pra onde ir.

Atualmente meus Natais são com minha mulher, tias, tios e primos dela, minhas três filhas, os respectivos cônjuges, o filho de um dos cônjuges, meus seis netos, meu bisneto, meus irmãos. Nem todos todo ano, mas todos os anos muitos deles. E continuamos recebendo amigos que não têm onde passar essa festa. Este ano ainda contamos com a família do marido de uma das netas, a mãe do meu bisneto.

Em nenhuma dessas festas aconteceu nada que justificasse evitar o ano seguinte. Uma família gigantesca, com gente das mais variadas origens, dos mais variados princípios, das mais variadas religiões e das mais variadas ideologias. Não importa! Acima de tudo isso está a ideia de que somos uma família, gostamos mais de uns do que de outros mas aprendemos a gostar, nem que seja um pouquinho, de todos.

É sempre uma alegria rever gente que faz tempo que não vemos, continuar vendo gente que vemos todos os dias, rir, fazer piadas, comer de forma desumana e deseducada, esparramar presentinhos uns pros outros, coisas pequenas que não significam “veja o dinheirão que estou gastando com você”. Significam apenas “você também foi lembrado”.

Não gosto desse novo Natal das outras pessoas onde o importante é declarar publicamente o quão sacrificante é estar reunido em família. Claro, isso vai passar. Como passou o ódio ao cajuzinho. Falar mal do Natal e de estar com parentes é só um modismo. Uma “trend”, como querem alguns. É importante dizer essas coisas publicamente, de preferência em redes sociais, como um compromisso a ser cumprido com a tribo.

Vai passar. E as pessoas poderão voltar a dizer que, mesmo com alguma discussão, alguma chateação, alguma contrariedade, no final das contas, foi bom estarem todos reunidos. E que tiveram um Feliz Natal.

Talvez já neste ano que se inicia. Afinal, será um Ano Novo e podemos dar um jeitinho pra que ele seja pacífico, gratificante e próspero.

Sejamos felizes!

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