sexta-feira, 9 de março de 2018

MENTIRINHAS!


Aí o cara diz: “Não concordo com nada do que você pensa. Mas tenho muito respeito por você”.
Mentirinha!
Ora, se um indivíduo não concorda com outro é porque acha que o outro está errado. Se o outro está errado, com certeza o que ele está dizendo é uma bobagem frente ao que o primeiro acha que é o certo. E como é que alguém, em sã consciência, respeita uma pessoa que está sempre errada e só diz bobagens?
Ele faz seu número de alta nobreza e complacência com alguém que julga inferior, já que diz coisas erradas na frente dele, logo Dele, que sabe quais são as coisas certas. Ele alega respeito.
Mentirinha!
Em seguida, sem dúvida, ele vai pra junto dos seus, aqueles que compartilham de sua segurança de que detém todas as respostas e que, como já dizia a antiga personagem, só abre a boca quando tem certeza. Afinal, isso é natural em todos nós. Não faria sentido convivermos o tempo todo com gente que discorda, com antagonistas. Adoramos fazer o discurso de que o bom é a multiplicidade de idéias, de que acreditamos que da discussão nasce a luz.
Mentirinha!
Só formamos grupos, tribos, turmas, redes sociais com pessoas que pensem exatamente do jeito que pensamos. Ou que, pelo menos, aleguem isso. Melhor ainda quando dizem que pensam o que pensamos não porque realmente pensam daquele jeito mas porque estão convencidas de que o que pensamos é que é bom.
Ele vai pra junto dos seus, dizia eu. E lá, claro, vai comentar o encontro com o outro, vai contar como o outro estava enganado, o quanto tentou fazer com que o pobre coitado visse a luz, vai detalhar o tanto que se esforçou para que o infeliz se bandeasse para o lado Bom, que, claro, é o dele e o dos seus. Todos vão fazer cara de admiração por sua abnegação sacerdotal e depois vão balançar a cabeça compungidos pelo pobre coitado que não viu o caminho do Bem. Eliminando palavras escolhidas a dedo, o que vai acontecer ali é a boa e velha fofoca sobre o outro. E ninguém faz fofoca sobre alguém a quem se respeita.
Mentirinha!
Na verdade o nobre encaminhador de almas já conseguiu algum poder, nem que seja apenas moral e, querendo ou não, assusta a pelo menos metade dos seus ouvintes. Eles têm receio de discordar do portador do archote, não querem ser vistos como antagonistas de alma tão nobre e dedicada que leva todos pela mão em direção à Iluminação. Mesmo uns poucos que começam a pensar que ele talvez seja apenas um pavão, lindas penas, pouco corpo e, lá embaixo, pés horrendos, mesmo esses evitam atritos. Pensam para si e se calam. E fazem a mesma cara de admiração que os admiradores de verdade fazem.
Mentirinha!
De mentirinha em mentirinha vamos tecendo nossa sociedade. No fundo, é assim mesmo que tem que ser. Se todos dissessem só verdades talvez não houvesse mais muita gente viva pra discutir fome, veganismo, preconceitos, futebol ou ética.
Mas minha dose de mentiras a serem ditas ou a serem mentirosamente aceitas não inclui o cara que diz que “me respeita”. Esse, pra mim, exagera. Quem discorda de mim, por favor, da próxima vez que me encontrar, só discorde. Não declare respeito. Não venha com Voltaire. Voltaire, como todos nós, era um homem, um humano, portanto, um mentiroso. Ninguém defende de verdade o direito de outra pessoa dizer coisas com as quais não se concorda. E nem foi Voltaire quem escreveu isso e sim uma biógrafa dele, outra mentirinha. De qualquer maneira, a frase é vazia. Se não concordamos é porque achamos que está errado. Se está errado, é um mal. Se é um mal, como se pode defender o direito de alguém fazer apologia ao mal?
Mentirinha!

sábado, 3 de março de 2018

O CERTO É CERTO?


Ultimamente tem surgido com uma certa insistência nas redes da vida uma frase atribuída a Gilbert Chesterton:
“O certo é certo, mesmo que ninguém o faça. O errado é errado, mesmo que todos se enganem sobre ele”.
Às vezes, quem posta a frase altera uma palavra ou outra, de acordo com a conveniência do que se pretende cobrar ou de quem se quer acusar, mas, em síntese, é isso.
Parece um lindo pensamento, uma idéia a ser seguida à risca por quem pretende ser visto como um ser humano repleto de retidão e princípios morais e éticos.
Só que (aqui pra nós, que ninguém nos leia) as afirmações não têm realmente nenhum significado. Errado e Certo são só convenções que variam de acordo com a época, com o local, com o uso.
Há poucas décadas, a Lei exigia que se pedisse um alvará, uma autorização pra qualquer reunião com mais de cinco pessoas. Numa casa com pai, mãe e duas crianças, se quisessem fazer um bolinho de aniversário pra um dos filhos não havia nenhum problema. Mas se convidassem o tio e a tia do garoto, tinham que pedir alvará porque já haveria seis pessoas. Isso era o regulamento, era a Lei, portanto, era o Certo! Mas a população começou a não ligar pra isso. Ninguém pedia alvará nenhum. Não dava pra prender todo mundo do país inteiro. Mudou-se o Certo! Agora o Certo passou a ser façam sua festa aí sem pedir pra ninguém. Liberdade passou a ser o Certo. Até surgirem os Pancadões! Aí a Liberdade de reuniões passou a não ser tão certo assim.
Um dia foi muito Errado as mulheres exibirem mais do que suas mãos e seus tornozelos em público. Nem mesmo o formato do corpo em exibição, ainda que coberto, era aceitável. Sofri um acidente aos seis anos e minha mãe foi impedida de entrar numa Santa Casa pra me acompanhar porque estava, indecentemente, usando calças compridas. Isso era Errado. Aí as mulheres queimaram sutiãs, vestiram minissaias, fizeram movimentos, expuseram os seios nas ruas, meu-corpo-minhas-regras e não teve jeito: mudou-se o Errado. Agora o Errado é cobrir demais o corpo com alguma coisa que não seja tatuagem.
Portanto, a vida mostra que o Chesterton era bom de frases de efeito cuja utilidade era fazer o citante parecer muito culto ou muito digno nos bares boêmios e, hoje em dia, na redes. Mas o próprio Chesterton disse: “Devo o meu sucesso a ouvir respeitosamente os melhores conselhos e depois fazer o contrário.”
A História mostra que o contrário é mais razoável. Quando muita gente insiste em fazer o que até aquele momento era considerado Errado, a única saída é fazer com que se torne Certo. O Certo é o que a maioria quer, o Errado é o que a maioria evita. Está aí a descriminalização da maconha pra provar isso.
O Certo não é permanente e o Errado não é eterno.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

INVEJAS


O velho está sentado perto da janela aberta. Segundo andar, frente pra rua. Cachimbo aceso, olhando o movimento da rua, nada pra fazer. Perna direita com uma leve infecção que não tem grandes consequências mas o impede de andar por alguns dias. Portanto, não pode ir trabalhar. Não há nada a fazer, a não ser tomar um “sol de janela” como ele costuma dizer. Lá na rua passa um rapaz em uma bicicleta e cria uma leve inveja no velho. Ele adoraria poder descer e pedalar um pouco. Mas não pode mover a perna.
O ciclista, ao passar, olha pra cima e vê aquele homem sentado à janela, com um cachimbo aceso na boca, um ar de vida ganha. Fica com uma leve inveja, já que está rodando com aquela bicicleta desde a parte da manhã, fazendo entregas pra padaria para a qual trabalha. Adoraria poder ficar sentado à janela em uma tarde de um dia de semana, sem nada pra fazer.
O sem-teto vem passando pela rua, descalço, com um saco às costas, dentro do qual há latinhas vazias, pedaços de papelão, diversos materiais que, mais tarde, ele irá transformar em alguns trocados com os quais talvez coma alguma coisa. Sente uma enorme inveja do rapaz de bicicleta, arrumadinho, de tênis, despreocupado, olhando pra cima. O sem-teto olha pra onde o rapaz está olhando e vê o velho de cachimbo. Sente uma inveja maior ainda daquele homem que tem uma casa na janela da qual ficar.
O menino de seis anos que acaba de sair da escola, vem pela calçada de mão dada com a mãe. Vê todas aquelas pessoas na rua, vê o velho na janela e, mesmo não sabendo ainda que nome dar, sente uma pequena inveja de todos os que estão livres pra fazerem o que quiserem, sem terem que ir pra escola, sem terem que fazer lição de casa, sem terem que obedecer mães. Gente grande não obedece ninguém.
O sem-teto, devido ao peso do saco que carrega tropeça e cambaleia em direção à calçada. Quase cai em cima do menino que grita assustado. A mãe puxa o menino e os dois acabam indo parar no meio da rua. O menino se agarra à mãe e enfia o rosto no peito dela, com medo de olhar. O ciclista desvia da mãe e da criança mas acaba esbarrando no sem-teto que o empurra fazendo com que caia do veículo. A mãe se afasta de tudo levando o filho com o rosto ainda escondido nela, o ciclista discute com o sem-teto que se levanta e não dá corda, simplesmente vai embora. O ciclista volta pra bicicleta, dobra a esquina e desaparece. O menino, antes de ir parar na calçada oposta ainda bem assustado, dá uma olhada pra cima e vê o velho fechando a janela dando uma última baforada no cachimbo. Olha pra trás e não vê mais ninguém. Apenas a rua vazia.
O velho comenta com a família que um bêbado arrumou encrenca com um daqueles moleques que não fazem nada na vida e passam o dia andando de bicicleta.
O sem-teto para na esquina seguinte angustiado por não ter tido coragem de discutir com o mauricinho de bicicleta. Mas o que ele poderia fazer? O moleque devia ser filhinho de papai e podia fazer com que ele ainda fosse parar na cadeia só por ter tropeçado.
O ciclista só está preocupado em voltar logo pra padaria e fazer outras entregas, não tem tempo a perder com nóias chapados de crack.
O menino passou muitos dias contando sua grande aventura pros amiguinhos na escola. Estava voltando pra casa com a mãe quando foi atacado pelo homem do saco em pessoa! A mãe, que é poderosa, o salvou na hora em que o homem ia colocá-lo dentro do saco. Um moço de bicicleta bateu no monstro e ele já ia levar o moço com bicileta e tudo mas um velho bruxo que estava numa janela ali perto, soltou fumaça do cachimbo e fez os dois desaparecerem pra sempre!
Por alguns dias, o menino foi alvo da inveja de toda a turma!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

ANONIMATO


Certa vez uma amiga, bem intencionada mas não tão bem orientada, se referiu de maneira crítica ao fato de eu divulgar os trabalhos em que estou envolvido, tornando públicos os nomes das pessoas que o realizaram como dubladores, técnicos, tradutores, mixadores, etc.
É preciso explicar alguns detalhes internos quanto a essa divulgação.
Em nosso trabalho há contratos que assinamos com cláusulas sobre a execução, sobre remuneração e, em alguns deles, exigência de confidencialidade. Claro que essa tal confidencialidade se refere a não divulgar o que acontece no filme ou na série, uma proteção contra o que é chamado de SPOILER em português atual (que todos sabem ter origem anglo-saxã).
Gostaria que o paciente leitor tivesse isso em mente: nem todo trabalho que fazemos tem contrato, nem todo contrato tem cláusula de confidencialidade, nem todo contrato que tenha essa cláusula se refere à proibição de um dublador dizer publicamente “Eu dublei o ator Tal”. E, mais importante, esses contratos sempre aparecem semanas depois de termos terminado o trabalho. Ora, todo contrato deve ser, legal e moralmente, cumprido após sua assinatura mas antes de ele sequer aparecer não há nada que obrigue ninguém a cumpri-lo por dedução, por suposição, por alguém achar que o contrato talvez tenha a cláusula X ou Y.
Isso posto, quero lembrar que sempre foi essencial divulgar o trabalho de artistas. Artistas dependem de divulgação sempre. Cantores, escritores, pintores, atores, seja que tipo de artista for. Quando não há o tal contrato, só restou a opinião de algumas pessoas sobre o assunto e ela é tão boa quanto qualquer outra opinião. Acredito que foi aí que minha amiga caiu na orientação equivocada à qual me referi ao me cobrar por divulgar trabalhos meus e de colegas.
Eu sempre vou divulgar tudo o que eu dirigir porque tenho um grande respeito pelo elenco que participa dos trabalhos que fazemos e acho que não basta aquela listinha no fim do filme onde ninguém lê. Todo mundo já sabe, por exemplo, que Paul McCartney vai fazer um tio do Jack Sparrow no próximo Piratas do Caribe. Já sabe tudo sobre os próximos filmes de todos os super-heróis. Já sabe que Christian Bale voltará a ser o Batman. Já sabe que o Doutor de Doctor Who será uma mulher na próxima temporada. De onde saiu a brilhante idéia de que os dubladores devem ficar escondidos? Se me derem um contrato de confidencialidade, vou assinar e obedecer. Caso ele não exista, meu elenco sempre vai estar sob holofotes, que é o lugar de todo artista. Um quadrinho no Facebook ou um comentário no Tweeter nem é um holofote, é uma lanterna. Mas é melhor do que nada.
Na verdade não acredito que qualquer um, enquanto artista, não goste de ver seu nome em destaque nos trabalhos que faz.
Não faz muito sentido um artista sem divulgação!
Obedecer o tal contrato, quando ele existe, é uma obrigação que, por enquanto, temos que cumprir, sem alternativa. Mas apoiar essa idéia, transformá-la em uma coisa boa ou cumprir por antecipação, sem saber sequer se o contrato vai existir, é reduzir artistas de grande talento a uma condição inferior, é levar todos para décadas no passado quando ninguém do público os conhecia, quando não se sabia sequer de sua existência, um retrocesso que só atende a interesses de quem precisa que os artistas permaneçam desconhecidos, pequenos e submissos a imposições.
Concordar com essa idéia e até cobrar sua aplicação não é um sinal de posicionamento ético e de bem proceder. É só falta de posicionamento e inércia sem procedimentos. Ausência de ousadia. E o que mais se espera de um artista é ousadia. A quebra de paradigmas. A simples obediência é um comportamento vacum, um suicídio profissional e artístico.
Um artista anônimo é um artista morto.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

REVENDO O MOMENTO COM SHERLOCK


Assisti novamente à série Sherlock no Netflix. Inteira. Dez episódios de 90 minutos. Pela terceira ou quarta vez. Não há mais surpresas. Não há mais mistérios. Sei todos os crimes, conheço os criminosos, tenho ciência de quando e como fizeram. Praticamente sei as falas de cor. As mais importantes sei mesmo.

Então por que assisti mais uma vez? E por que sei que ainda vou ver de novo? Já sei tudo sobre as deduções e idiossincrasias do Sherlock, a lealdade e a dignidade do Watson, a força e determinação disfarçadas em graciosidade da sra. Hudson, a entrega total e absoluta da Molly Hooper, a confiança e admiração do Greg Lestrade, a genialidade insana do Jim Moriarty. Por que continuo assistindo?
É que agora que já sei tudo isso posso me entregar ao prazer de olhar detalhes de produção, de direção, analisar roteiros, usufruir da interpretação de todo aquele elenco fenomenal da BBC e, acima de tudo, me regozijar com a Dublagem da série!
Nos créditos aparece escrito “Direção de Dublagem: Nelson Machado”. De todos os trabalhos de direção que fiz, nos mais de 30 anos nessa função, esse é o de que tenho mais orgulho! Mas não acho que nesse trabalho a minha função tenha sido exatamente a de Diretor. A palavra nos leva a pensar em uma pessoa no comando absoluto, naquele que dita o que deve ser feito, que dá as ordens, naquele cuja palavra é o regulamento final. E não foi assim que me senti nesse trabalho.
Me senti mais um regente. Um maestro. Alguém à frente de uma orquestra afinada, com músicos da mais alta competência, cada um conhecendo seu instrumento a fundo e tirando dele a melodia mais tocante, o som mais encantador. Basta ao regente pedir. A magia virá de cada um.
Nessa série houve uma entrega de todos tão completa, um prazer em participar da obra tão evidente que as emoções saltam da tela pros nosso ouvidos e nos atingem em cheio da maneira que se previu, sem falhas. “Um artista só não toca a quem de si não abre uma porta”, disse Sílvio Giraldi em uma das suas excelentes músicas. Se o espectador deixar sua porta apenas entreaberta, os Dubladores de Sherlock irão tocá-lo de forma profunda e permanente.
Vilões, vítimas e familiares inesquecíveis dublados por Alessandra Merz, Alna Ferreira, Armando Tiraboschi, Carlinhos Silveira, Cecília Lemes, Fábio Moura, Gabriel Noya, Gilberto Baroli, Leo Caldas, Mara Lídia, Marcelo Pissardini, Márcia Regina, Rosely Gonçalves, Tatiane Keplmair, Teca Pinkovai; parceiros em praticamente todas as aventuras dublados por Cássia Biceglia, Márcio Marconato, Raquel Marinho, Rosana Beltrame, Samira Fernandes, Sérgio Rufino, Thiago Zambrano, Zayra Zordan; e, claro, a dupla principal, Sherlock e Watson com uma dublagem acima e além do cumprimento do dever de Nestor Chiesse e Ricardo Teles somada à maluca e difícil interpretação vocal de André Sauer no maníaco Jim Moriarty. Momentos grandiosos onde as vozes se aliam às imagens de forma tão competente e com tanta sensibilidade que viajamos nas emoções e nos esquecemos de que está dublado.
Trabalhos assim resgatam um pouco do nosso prazer dessa profissão neste momento em que parece que vivemos apenas de queixas, acusações, patrulhamentos, gritos, dedos apontados, um momento em que parece estarmos vendo apenas o que há de errado no mundo, no nosso mundo, nos tornando fiscais, ativistas, policiais, juízes e deixando pouco tempo pra nos lembrarmos de que somos mais do que isso. Somos artistas!
Não há regulamento no mundo que obrigue um elenco a fazer o que fez em Sherlock e em tantas outras produções excepcionalmente bem dubladas que têm aparecido. Apenas o talento, a entrega e a vontade de fazer bem feito leva a esse resultado. Não o dedo acusatório de quem se supõe o inventor e o fiscal do que é certo. Não as ameaças constrangedoras ou o julgamento sumário com execução imediata de quem ainda ontem chamávamos de amigo. Apenas a alma do artista cria a arte. A boa. Aquela que nos atinge. Aquela que guardamos na memória e no coração. A arte que “só não toca a quem de si não abre uma porta”.
Sherlock é um exemplo incontestável dessa arte de Dubladores fabulosos. Eu apenas regi a sinfonia. Eles sabiam o que fazer com seus instrumentos e criaram beleza. Há mais exemplos por aí. Se pararmos de procurar apenas as coisas das quais possamos falar mal e passarmos a aclamar as boas, veremos que estas são em número assombrosamente maior do que aquelas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

GRATIDÃO?

O celular toca, eu atendo e, devido à providencial identificação de chamadas, já sei que não vou ouvir ALÔ.
- Sabe o que me deixa estressado?
- Grande Ascenço! Quanto tempo!
Ascenço, meu velho amigo neurastênico a quem tudo estressa.
- E aí, cumpade? O que anda fazendo?
- Ando me estressando.
- Mas o que tem estressado você? – e, já conhecendo o Ascenço -  Faz um resumo, poucas palavras.
- Pois é. Poucas palavras! Estão ficando cada vez mais poucas!
- Não entendi.
- Você é um homem das palavras! Trabalha com elas! Vive delas! E não está percebendo a extinção delas?
- Bom, tirando NOSOCÔMIO e BELETRISMO, não me ocorre mais nenhuma palavra em extinção. – ainda tentei brincar.
- Vai fazendo piada. Já tivemos a abolição de elogios. Ninguém mais diz que uma coisa é ótima, excelente, boa, bem feita, de qualidade, ninguém diz que alguém é competente, exímio, habilidoso, eficiente, nada mais é genial, inteligente... Tudo isso foi substituído por uma única palavrinha de quatro letras que, convenhamos, antes designava o contrário, uma coisa ruim ou uma situação difícil.
Achei engraçado o Ascenço evitando o uso da palavra FODA, mas ele é meio antiguinho.
- Mas a gente até já conversou sobre isso, Ascenço. Você se estressou de novo pelo mesmo motivo? Está se aprimorando!
- Não! Essa eu já superei. Foi só um exemplo introdutório.
Eu ia comentar sobre a ligação entre a palavra que ele não queria dizer e a idéia de introduções, mas achei melhor não estressar mais o meu amigo.
- Agora tem essa tal de GRATIDÃO!
- Ué... Mas GRATIDÃO não é uma coisa nova, Ascenço, e nem mudou de significado.
- Mas ela está levando as outras à extinção! Temos palavras que deixam claro o estado de espírito de quem recebe favores, gentilezas, apoio e tudo mais. Temos a palavra GRATO, que indica que o camarada se sente gratificado pelo que recebeu. Temos OBRIGADO. Numa posição de humildade, a pessoa se sente com obrigações com quem a favoreceu. Quando um sujeito diz AGRADECIDO, ele abre o coração de forma leve e agradável, deixa claro qual é a sensação criada nele pelo que o outro fez. Até mesmo a mais recente, VALEU, é pessoal. Mostra que o gesto teve valor, que foi benéfico. O que a outra pessoa fez teve alguma validade em sua vida.
- Mas por que você acha que essas palavras estão em extinção?
- Porque ninguém mais usa! Agora só se diz GRATIDÃO! Uma palavra suspensa no ar, um substantivo, não qualifica ninguém, não deixa claro nem quanto a quem sente essa tal gratidão. Ela está lá, solta, existe, pega aí, se você quiser. E não me cobre, nunca! Eu disse que havia gratidão, mas não disse que ela se originava em mim! Acham isso moderninho, esotérico, engajado no pensamento contemporâneo, cósmico, sei lá o quê. Mas eu acho meio impessoal e quase deseducado.
Quando o Ascenço desligou me desejando feliz Ano Novo, tudo o que consegui dizer foi IGUALMENTE. 
Eu não estava sendo formal. Só estava confuso quanto a como agradecer a ele.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O NUNCA-OUVI-FALAR

Ele queria muito aquele trabalho. Aquela profissão era a dos seus sonhos. Muito jovem, cheio de planos, esperanças, ideais, deixou de lado imposições de família, adiou projetos e mergulhou de cabeça naquele mundo no qual ele pretendia viver para sempre.
O começo quase o desanimou. Era difícil entrar naquele meio. Profissionais antigos, bem posicionados, os De-Sempre, torciam o nariz, viravam as costas, não queriam muito envolvimento com ele e com outros como ele, novos, inexperientes, sem treino. O mercado exigia gente treinada e rápida pro trabalho. Era difícil conseguir uma participação. Ele não sabia todas as regras daquele ambiente, estava tentando se familiarizar, tentando se inteirar, se encaixar, se adequar. Tentando ser aceito. E isso era o mais difícil.
- Quem é esse aí?
- Nunca ouvi falar.
- Por que ele está participando do nosso trabalho?
- Deve ser porque faz mais barato do que nós, os De-Sempre.
E, na verdade, isso acontecia mesmo. Ele acabava fazendo pequenos trabalhos, participações desimportantes e o custo do trabalho dele acabava sendo menor. Sem saber ele burlava regras. Mais tarde descobriu que estava transgredindo essa ou aquela norma. Os De-Sempre alegavam com tanta segurança que aquilo era A Lei que ele acreditava. Sem verificar. Sem meios de descobrir. Não era lei nenhuma, era apenas uma norma interna, um combinado, uma praxe, mas ele engolia a afirmação de que era A Lei e pronto.
Com o tempo, aprendendo aqui e ali, ele foi descobrindo que realmente estava passando por cima de uma coisa ou outra. Em cada lugar aonde ele ia exercer seu sonho havia uma transgressão diferente que era condição sine-qua-non para que os Nunca-Ouvi-Falar pudessem estar lá. Com os De-Sempre não se tentavam aquelas pequenas transgressões. Só as grandes. E grandes transgressões não se comentam, não aparecem, um De-Sempre não acusa outro De-Sempre, a irmandade se protege. Mas os Nunca-Ouvi-Falar apareciam. E ele ainda era um Nunca-Ouvi-Falar. Qualquer deslize dele era notícia e motivo para bloqueios.
Mesmo com toda a dificuldade que um Nunca-Ouvi-Falar tem que enfrentar, ele insistiu. Se manteve apegado ao sonho, ele ia pertencer àquele mundo. Sua intenção inicial era simplesmente entrar, participar e ser reconhecido pelo que fizesse. Agora ele já estava mais calejado e sabia que a única maneira segura de se manter no sonho era se tornar um De-Sempre. Mas ele já havia feito coisas que os De-Sempre consideravam pecado mortal. A princípio por ignorância. Depois, por medo de perder a migalha que havia conquistado.
O tempo foi passando e ele, talentoso que era, foi mostrando que podiam arriscar nele, que já havia aprendido ao menos o básico, que poderia alçar voos um pouco maiores. Foi se encaixando, tendo oportunidades.
Dez anos haviam se passado. Ele já tinha deixado de ser oficialmente um Nunca-Ouvi-Falar. Mas os enganos do passado ainda estavam grudados na pele dele, dentro das roupas dele, escorrendo pela grafia do nome dele. Era difícil se livrar daquilo. Os De-Sempre eram implacáveis. E ele ainda sofreu por mais alguns anos os freios rasgando sua boca, as rédeas impedindo seu progresso, as esporas ferindo seu flanco para que ele corresse pra longe. Mas ele resistiu.
Agora mais velho, mais experiente, mais político, mais esperto, mais vivido, ele já tinha aprendido as verdadeiras regras do jogo, já tinha entendido como é que se cometiam os Grandes Pecados em particular e como se recriminavam publicamente os pequenos. Ele já tinha treino profissional para fazer bem o trabalho, já tinha segurança suficiente para encarar desafios, já tinha relacionamentos que bastassem para conseguir chamados e colocações. Mas ele ainda estava no limbo. Ainda não era visto como um De-Sempre.
Um dia ele viu surgirem novas pessoas. Novos jovens com planos, esperanças e ideais. E, claro, com desconhecimentos, com enganos, com erros, com impropriedades. Um desses jovens estava batalhando sua entrada no mercado e alguém perguntou:
- Quem é esse aí?
Instintivamente, ele soltou a resposta esperada:
- Nunca ouvi falar.
Olhares interessados se voltaram para ele. Alguns profissionais que ele passou a vida admirando começaram a desenvolver teorias com ele. Os comentários das pessoas em volta passaram a inclui-lo e sua opinião começou a ser pedida e ouvida. Ele, então, para solidificar o momento, para não deixar a oportunidade escorrer por seus dedos, complementou:
- Deve estar aí porque é baratinho.

Naquele momento ele atingiu o ápice. Tornou-se, imediatamente, um De-Sempre. Dali em diante ele passaria a viver no tão sonhado Olimpo. Mas dentro dele, no mesmo instante, morria um jovem cheio de planos, esperanças e ideais que tinha lutado muito pra se manter à tona por mais de uma década.


(Crônica publicada no e-book O CRONISTA, à venda na Amazon - Veja quadro ao lado)