terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SE MEU PAI FOSSE VIVO


Se meu pai fosse vivo, hoje teria noventa e sete anos.

Se meu pai fosse vivo, talvez eu já tivesse contado pra ele da leve sensação de vingança que tive quando o coloquei pra conversar com a bisneta que ele não conhecia. Quando eu era criança, nos anos sessenta, ele vivia rindo dos filmes de ficção científica de que eu gostava. Dizia que aquela comunicação com imagens de um veículo pra outro jamais seria possível porque não haveria onde colocar a câmera. Ele tinha sido um homem de televisão e as câmeras que conheceu eram enormes, exigiam três homens para serem movidas e operadas. Quando meu pai fez oitenta anos, fiz o contato dele com a bisneta a quatrocentos e oitenta quilômetros de distância usando o celular que estava no meu bolso!

Se meu pai fosse vivo, talvez eu tivesse comentado, em algum momento, o fato de eu quase ter me tornado um delinquente aos doze anos por não aguentar a pressão de ser o filho de um homem tão importante quanto ele foi quando eu era apenas mais um moleque na rua, no meio de tantos outros sem pais famosos.

Se meu pai fosse vivo, talvez eu já tivesse declarado a mágoa que carreguei durante anos da minha vida por causa de acusações de coisas que não fiz, acusações que vinham do nada apenas porque ele não admitia a ideia de ser enganado por um moleque vinte e seis anos mais novo do que ele. Acusações preventivas!

Se meu pai fosse vivo, talvez eu contasse pra ele os truques que usei para que nem ele nem minha mãe jamais soubessem o que um escreveu pro outro depois da separação. Minha mãe mudou-se pra São Paulo. Meu pai continuou em Santos. E eu, com doze anos, fazia quinzenalmente o percurso entre uma cidade e outra levando cartas cheias de mágoas e histórias não resolvidas, acusações e imputações de culpas de ambos os lados pra ambos os lados. Eu abria as cartas durante a viagem. Lia tudo. Pegava só o que interessava (“Seu filho precisa de uma blusa de frio nova”), rasgava a carta e jogava no meio da via Anchieta. Naquele tempo, década de sessenta, o trajeto São Paulo-Santos era feito só pela Anchieta. E podíamos abrir as janelas dos ônibus antes de entrarmos na era congelante e tóxica do ar condicionado obrigatório.

Tanta coisa eu faria, diria, revelaria ao meu pai se ele fosse vivo hoje. Mas faria tudo isso em meio às gargalhadas que sei que meu pai daria comigo. Faria tudo isso sentado a uma mesa com um cinzeiro e uma cerveja gelada em cima dela. Pra nós dois. Como fizemos tantas vezes depois que me tornei adulto. Nos últimos vinte anos da vida dele fomos nos aproximando e acabamos ficando tão unidos, mesmo morando em cidades diferentes, que readquiri o direito e o orgulho de um título meio em desuso: primogênito.

Nos últimos vinte anos da vida dele, fui diversas vezes a Avanhandava, onde ele resolveu viver até morrer. Cidade pequena, todos se conhecem e o velho Machado se tornou um homem respeitado e muito querido por lá. Isso respingava em mim quando eu ia visitar. Voltava de lá com uma carga renovada na minha bateria de orgulho de ser quem sou e de ser filho de quem sou.

Um dono de estúdio com matriz em Santos um dia me perguntou se eu era parente do Nelson que tinha sido radialista na baixada nos anos sessenta e setenta. Ao saber que eu era filho dele, disse, emocionado: “Conheci seu pai quando eu e ele éramos jovens. Um cara excepcional! Se existissem mais homens como ele, o mundo seria um lugar bem melhor!” – Isso ainda tive tempo de contar pra ele quando era vivo.

Se meu pai fosse vivo, eu daria um jeito de trazê-lo pra São Paulo neste mês de dezembro. Na nossa mesa de Natal tão cheia de gente haveria mais uma pessoa: um velho de noventa e sete anos de idade a quem eu beijaria, declararia meu amor, agradeceria as coisas que me ensinou mesmo sem perceber que estava ensinando e todos ficaríamos preocupados com a saúde dele enquanto ele faria uma piada sobre o assunto dando um gole na cerveja e uma tragada no cigarro.

Se meu pai fosse vivo eu faria questão de deixar claro o quanto ele estaria sendo a cereja do bolo (ou a fruta cristalizada do panetone) pra todos nós no nosso definitivamente Feliz Natal!

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