terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

REVENDO O MOMENTO COM SHERLOCK


Assisti novamente à série Sherlock no Netflix. Inteira. Dez episódios de 90 minutos. Pela terceira ou quarta vez. Não há mais surpresas. Não há mais mistérios. Sei todos os crimes, conheço os criminosos, tenho ciência de quando e como fizeram. Praticamente sei as falas de cor. As mais importantes sei mesmo.

Então por que assisti mais uma vez? E por que sei que ainda vou ver de novo? Já sei tudo sobre as deduções e idiossincrasias do Sherlock, a lealdade e a dignidade do Watson, a força e determinação disfarçadas em graciosidade da sra. Hudson, a entrega total e absoluta da Molly Hooper, a confiança e admiração do Greg Lestrade, a genialidade insana do Jim Moriarty. Por que continuo assistindo?
É que agora que já sei tudo isso posso me entregar ao prazer de olhar detalhes de produção, de direção, analisar roteiros, usufruir da interpretação de todo aquele elenco fenomenal da BBC e, acima de tudo, me regozijar com a Dublagem da série!
Nos créditos aparece escrito “Direção de Dublagem: Nelson Machado”. De todos os trabalhos de direção que fiz, nos mais de 30 anos nessa função, esse é o de que tenho mais orgulho! Mas não acho que nesse trabalho a minha função tenha sido exatamente a de Diretor. A palavra nos leva a pensar em uma pessoa no comando absoluto, naquele que dita o que deve ser feito, que dá as ordens, naquele cuja palavra é o regulamento final. E não foi assim que me senti nesse trabalho.
Me senti mais um regente. Um maestro. Alguém à frente de uma orquestra afinada, com músicos da mais alta competência, cada um conhecendo seu instrumento a fundo e tirando dele a melodia mais tocante, o som mais encantador. Basta ao regente pedir. A magia virá de cada um.
Nessa série houve uma entrega de todos tão completa, um prazer em participar da obra tão evidente que as emoções saltam da tela pros nosso ouvidos e nos atingem em cheio da maneira que se previu, sem falhas. “Um artista só não toca a quem de si não abre uma porta”, disse Sílvio Giraldi em uma das suas excelentes músicas. Se o espectador deixar sua porta apenas entreaberta, os Dubladores de Sherlock irão tocá-lo de forma profunda e permanente.
Vilões, vítimas e familiares inesquecíveis dublados por Alessandra Merz, Alna Ferreira, Armando Tiraboschi, Carlinhos Silveira, Cecília Lemes, Fábio Moura, Gabriel Noya, Gilberto Baroli, Leo Caldas, Mara Lídia, Marcelo Pissardini, Márcia Regina, Rosely Gonçalves, Tatiane Keplmair, Teca Pinkovai; parceiros em praticamente todas as aventuras dublados por Cássia Biceglia, Márcio Marconato, Raquel Marinho, Rosana Beltrame, Samira Fernandes, Sérgio Rufino, Thiago Zambrano, Zayra Zordan; e, claro, a dupla principal, Sherlock e Watson com uma dublagem acima e além do cumprimento do dever de Nestor Chiesse e Ricardo Teles somada à maluca e difícil interpretação vocal de André Sauer no maníaco Jim Moriarty. Momentos grandiosos onde as vozes se aliam às imagens de forma tão competente e com tanta sensibilidade que viajamos nas emoções e nos esquecemos de que está dublado.
Trabalhos assim resgatam um pouco do nosso prazer dessa profissão neste momento em que parece que vivemos apenas de queixas, acusações, patrulhamentos, gritos, dedos apontados, um momento em que parece estarmos vendo apenas o que há de errado no mundo, no nosso mundo, nos tornando fiscais, ativistas, policiais, juízes e deixando pouco tempo pra nos lembrarmos de que somos mais do que isso. Somos artistas!
Não há regulamento no mundo que obrigue um elenco a fazer o que fez em Sherlock e em tantas outras produções excepcionalmente bem dubladas que têm aparecido. Apenas o talento, a entrega e a vontade de fazer bem feito leva a esse resultado. Não o dedo acusatório de quem se supõe o inventor e o fiscal do que é certo. Não as ameaças constrangedoras ou o julgamento sumário com execução imediata de quem ainda ontem chamávamos de amigo. Apenas a alma do artista cria a arte. A boa. Aquela que nos atinge. Aquela que guardamos na memória e no coração. A arte que “só não toca a quem de si não abre uma porta”.
Sherlock é um exemplo incontestável dessa arte de Dubladores fabulosos. Eu apenas regi a sinfonia. Eles sabiam o que fazer com seus instrumentos e criaram beleza. Há mais exemplos por aí. Se pararmos de procurar apenas as coisas das quais possamos falar mal e passarmos a aclamar as boas, veremos que estas são em número assombrosamente maior do que aquelas.

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