domingo, 22 de novembro de 2015

O BICHO

− Mãe, eu tô com medo! – o menino de cinco anos estava parado na soleira da porta que ligava o corredor da casa à sala.
− Medo do quê, filho? – a mãe, assim como o pai, sentados no sofá, assistiam ao programa de domingo à noite. Olhos pregados na TV.
− Do bicho.
− Que bicho, meu filho? Seu quarto está limpinho, não tem bicho nenhum lá.
− Não, mãe, não é esse bicho... É um monstro que...
− Filho, papai e mamãe estão vendo o programa. Fica quietinho. – cortou o pai, sem olhar pro garoto.
− Mas pai, o bicho vai...
Finalmente o pai se vira pro garoto. E ele sabia que o pai só fazia isso quando estava chateado.
− O bicho não vai nada porque não existe bicho nenhum. Vai brincar lá no seu quarto e deixa a gente assistir.
− Mas eu vi o bicho no tablet. É grande. Ele ataca gente. É um bicho monstruoso!
− Eu disse que tinha que bloquear o acesso desse menino na Internet.
− E você acha que adianta? Essas crianças já nascem sabendo mexer em tudo dessas coisas.
− Então você devia ficar de olho. Passa o dia inteiro com ele.
− Por que você não fica de olho também? Por que eu é que tenho sempre que ser a chata?
− Porque eu tenho que trabalhar pra comprar TV grande pra sala e tablet pro moleque.
− Hum! Bem que eu queria trabalhar também. Não vou porque não deixam.
− Não vai começar com isso de novo! Não vem com esse papinho feminista que na minha casa não tem disso não.
− Papinho feminista? Você me prende dentro de casa o dia inteiro, a vida inteira e acha que eu querer ter um pouco de liberdade, ter uma vida social, colegas de trabalho, uma renda a mais, tudo isso é movimento feminista?
− E não é? Você tem uma casa com tudo, tem um filho pra cuidar, um marido que te garante uma vida boa, quer ficar na rua batendo perna pra quê? Pra se juntar com aquelas amigas mal comidas que só sabem ficar falando mal de homem.
− Pai! Mãe! Vão brigar de novo?
− A mamãe não está brigando com o papai. A gente só está conversando.
−  É . Conversando assunto que não interessa e perdendo o programa.
− Vocês não podem ficar comigo lá no quarto? Eu tô com medo.
− Não tem do que ter medo! Vai lá brincar com suas coisas!
− Mas o bicho... O bicho monstruoso...
O pai perdeu a paciência.
− Ninguém vai ficar no quarto com você. Se quiser companhia, vem pra sala e fica com a gente. Mas fica em silêncio que eu quero ver o programa!
O menino abaixou a cabeça, percorreu o corredor e entrou no quarto. Olhinhos assustados, carinha desesperada que sempre se vê em quem tenta avisar as pessoas de alguma coisa importante e não é ouvido. Sentou-se à mesinha que o avô tinha dado pra ele, pegou o tablet e não se mexeu mais dali. Nem mesmo quando começou a ouvir o som medonho como um rugido e os gritos na sala. Ficou quietinho e só saiu do quarto horas depois, retirado por uma assistente social enquanto a polícia, que tinha sido chamada por um vizinho, analisava o que não conseguia chamar de “cena do crime”. Não parecia coisa de um criminoso. Os dois corpos na sala estavam dilacerados, pedaços espalhados por toda parte. Parecia que tinham sido estraçalhados por algum animal. Os policiais não conseguiam entender como teria entrado e saído, já que tudo estava trancado, mas não tinham dúvida de que as mortes tinham sido causadas por um bicho. Um bicho bem grande. Na verdade, um bicho monstruoso!
O menino tentou avisar.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

122-QUANTA PERGUNTA!

O CHUTE

Se, na faculdade, Vanessa não tivesse chutado Adelmo, trocando-o por um aluno de Educação Física, ele não teria ficado, como sempre dizia, mais amargo do que jiló sem tempero.
Se Adelmo não tivesse ficado amargo, não teria perdido aulas, não teria se afastado da faculdade, não teria ficado, como sempre dizia, com a cabeça desarrumada e teria se formado em jornalismo.
Se ele tivesse se formado em jornalismo, talvez tivesse tido uma carreira, como sempre dizia, se não brilhante, pelo menos satisfatória.
Se tivesse tido uma carreira, Adelmo não teria abandonado a si mesmo e não teria mergulhado na bebida, vivendo de porre, como sempre dizia, dia sim e o outro também.
Se ele não vivesse alcoolizado, não teria atravessado a avenida Sumaré daquele jeito e não teria levado a pancada que levou do Fiat cujo motorista não acreditou que ele fosse mesmo ficar parado no meio da pista olhando pra ontem, como Adelmo sempre dizia.
Se o motorista do Fiat não tivesse parado e prestado socorro, Adelmo não teria ido pro Hospital Sorocabano, na Lapa, e não teria sido atendido pela Ester que, como ele sempre dizia, foi o anjo que entrou na vida dele empurrado por um Fiat. 
Se Adelmo não se arriscasse, no dia da alta, a convidar Ester para uma cerveja, ela não poderia dizer a ele que não bebia mas que aceitaria uma Coca. Como ele sempre dizia, era melhor do que nada.
Se Ester tomasse cerveja, talvez Adelmo não tivesse repensado sua vida até ali e ela não seria, como ele sempre dizia, um “divisor de álcool” na vida dele.
Se Adelmo não tivesse mudado sua vida, Ester não aguentaria se encontrar mais vezes com um bêbado, mesmo já estando, como ele sempre dizia, com as quatro rodas arriadas por ele.
Mas Adelmo mudou. Se casou com Ester. Começou um pequeno negócio de entregas. Ester saiu do hospital para ajudá-lo no negócio. Eles progrediram. Em poucos anos tinham uma transportadora. Vieram os filhos. Três. Dois meninos e uma menina. Os filhos cresceram. Se formaram. O menino do meio em jornalismo, pra orgulho do pai. Os três se casaram. O filho mais velho deu dois netos pro Adelmo. O do meio e a mais nova deram um cada um. Os netos cresceram. Se tornaram jovens bonitos, bem criados, educados, toda a família era muito orgulhosa de todos e de cada um de seus membros.
Adelmo envelheceu feliz. Muito feliz.
Bem próximo do fim, com a boa e velha Ester ao seu lado relembrando seus tempos de enfermeira, com os filhos e os netos em volta, todos preparados para o adeus, Adelmo fez uma confissão: nunca tinha perdido Vanessa de vista. Não fez contato, nunca mais falou com ela, mas sabia por onde andava, como tinha vivido, sabia até endereço e telefone. Ester ficou chocada, mas não se mostrou ofendida. Um poço sem fundo de calma e compreensão, como Adelmo sempre dizia.
Ele garantiu pra esposa que desde que a conheceu nunca mais pensou em Vanessa como mulher, como namorada, como possível amante, nem mesmo imaginou como teria sido se ela não o tivesse chutado. Estava feliz com Ester, com os filhos, com os netos, com a vida que teve. Se manteve informado sobre ela apenas como... não sabia bem como o quê. Talvez só a idéia masculina de posse, “o que um dia foi meu não deixa de ser minha propriedade”, como sempre dizia. Foi assim com casas das quais se mudou, com amigos que foram embora do país, até mesmo com o primeiro carro que usou no começo para fazer entregas. Sempre esteve informado de tudo o que tinha passado por ele. E com a Vanessa foi a mesma coisa.
A respiração já estava curta. O cansaço quase não o deixava falar. Estava chegando a hora. A família, em volta, já sentia toda a tristeza pela qual passariam.
Mesmo falando baixo e de maneira entrecortada, Adelmo pediu ao filho mais velho sua agenda. Ele ainda mantinha uma tradicional, de papel, apesar de todos os bancos de dados que tinha na empresa. Abriu a agenda na letra V. Pegou o celular da filha, digitou um número e esperou. Ouviu uma voz feminina um tanto envelhecida mas inconfundível. Olhou para cada pessoa em volta, todos com algum detalhe dele mesmo em seus rostos, uma coletânea de Adelmos mais magros, mais gordos, mais bonitos, mais engraçados, todos mais jovens, todos tão amados. Em seguida olhou para sua velha companheira, seu anjo protetor, sua salvadora. Por fim, ao celular, para Vanessa, Adelmo disse uma coisa que nunca dissera: “Obrigado”.
Um bom chute na bunda empurra um homem pra frente, como ele sempre dizia.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

FLORA PAULITA Março de 2014

Continuando com nossa série de "reprises" do Câmera na Mão, neste vídeo gravado em março de 2014 FLORA PAULITA fala de seu plano de dominar o mundo!

ANÔNIMOS

Oi, meu nome é Anacleto e eu sou um viciado.
− Oi, Anacleto!
−Ontem foi domingo. Acordei tarde, tomei um banho e fui até a padaria. No caminho, vi passar uma limusine rosa! Enorme! Não fotografei com o celular. Não postei no Instagram. Esperei até chegar em casa e contei pra minha família. Verbalmente. Pessoalmente. Eu, minha mulher e minha filha tomamos café, comemos os pãezinhos que eu havia comprado, todos juntos na cozinha. Conversamos uns com os outros e eu não comentei nada do que falamos à mesa no grupo de whatsapp do trabalho. Fizemos um almoço rápido, sentamos pra almoçar e eu não postei fotos da comida pra contar vantagem no Facebook sobre como estava boa a refeição. À tarde fomos passear no Parque da Água Branca onde vimos um pavão que encantou minha filha, vimos ossos reais de dinossauros em um pequeno museu que tem lá, fomos ao aquário que eles mantêm. Elas se encantaram com os peixes. Depois levamos nossa filha para o parquinho que existe lá. Ela brincou no pula-pula, na pequena roda gigante, em um brinquedão inflável no qual se sobe para despencar escorregando, uma farra! E não postei nem mesmo um comentário desse passeio no Twitter.
Aplausos gerais dos presentes.
− Quero agradecer o apoio que venho recebendo deste grupo e dizer que não está fácil, mas estou resistindo e lutando. Sei que vou vencer. Um dia de cada vez. Só por hoje!
Todos cumprimentaram o Anacleto, fizeram questão de tirar uma foto com ele que seria revelada em papel, emoldurada e pendurada na parede da sala de reuniões e jamais seria postada em nenhuma rede social.
O Antero, responsável pela ida do Anacleto para as reuniões, fez questão de contar a vitória do amigo para os que não tinham ido naquele dia e começou a enviar uns e-mails pelo celular. Houve um mal estar geral. Mas ninguém recriminou. Afinal, uma recaída é sempre uma possibilidade.

sábado, 14 de novembro de 2015

JE SUIS... ESTRRESSADÔ!

- Sabe o que me deixa estressado?
Ascenço, o mais neurastênico dos meus amigos, sujeito irritadiço que sempre começa os assuntos com essa pergunta de maneira retórica, sem se importar se o interlocutor está interessado, me surpreendeu. Esperou a minha resposta!
- Sei de muitas coisas, Ascenço, mas particularmente desta vez não faço ideia.
- Essa galera que fica reclamando que todo mundo está dizendo JE SUIS PARIS mas que não teve o mesmo movimento pra tragédia de Mariana.
- Mas até que o pessoal tem razão, né, Ascenço? Tem mais gente comovida com os mortos do outro lado do oceano do que com os mortos daqui, do quintal ao lado. É uma desvalorização da própria terra que chega ao extremo de considerar que os mortos de outros lugares são mais importantes do que os nossos!
- Desvalorização uma ova! É só modinha. Não tem nada a ver com lá e aqui! Não tem nada a ver com o tamanho das tragédias. Não tem nada a ver nem mesmo com as tragédias em si!
- Como não tem, Ascenço? Então tem a ver com o quê?
- Modinha anti-religiosa!
- O que?
- É isso mesmo. Por isso me estresso. Já faz mais de uma década que virou bonito se mostrar contra religiões. Às vezes o cara nem é contra nada, só fala pra parecer engajado e culturalmente superior.
- Bom, entendo até uma ligação com o caso de Paris, mas o que tem a ver religião com a barragem de Mariana?
- Pois é... Nada! Por isso tem menos comentários. Por isso só o pessoal que quer por a culpa de tudo em duas ou três pessoas do país se abalou a comentar. As mortes de Paris foram causadas por ativistas islâmicos. Então dá pra ir a público pra dizer “Vejam o que a religião faz no mundo! Religião não presta! Abaixo as religiões! Je suis Paris!”. Mas a barragem não foi explodida por fanáticos de nenhuma seita, então não dá pra tecer comentários eruditos e mostrar o quanto se entende de História do Mundo fazendo as velhas citações sobre Inquisição, Cruzadas e, fatalmente, terminando com Hitler ser cristão.
- Exagero seu, Ascenço.
- Exagero? Faz um teste. Cria um boato na Internet. Dessas coisas que em Português moderno chamam de “hoax”. Divulga que "há informações" de que a barragem ruiu porque a verba destinada à manutenção dela foi desviada pra favorecer a construção de algum templo, igreja, mesquita, sinagoga, terreiro, qualquer coisa, na região. Você vai ver que em poucas horas vai começar um movimento JE SUIS MARRIANÁ. É estressante, meu amigo!

CONSELHO


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PAPO NOVO NO YOUTUBE NA PRÓXIMA QUARTA!

Estou editando o próximo vídeo do Papo com o Machado. Depois que o Machadinho choramingou no Facebook, vieram muitas, muitas, muitas perguntas. Tantas que não deu pra escolher uma. Acabei colocando várias em um vídeo só.
Algumas não entraram porque, na verdade, eram três, quatro perguntas em uma só. Apenas para ler as questões já tomaria o tempo inteiro do vídeo.
Outro tipo de coisa que toma muito tempo é quando o sujeito resolve primeiro fazer uma dissertação de 35 linhas sobre um assunto pra embutir uma pergunta lá no meio. Impossível de colocar no vídeo.
E, por fim, mas, como sempre, não menos importante, as perguntas que começam com “FALE SOBRE” e com “COMO FOI”. “Fale sobre o tempo em que vocês dublaram Chaves”. “Como foi ter vivido o tempo da AIC?”. Pras duas perguntas a resposta poderia simplesmente ser: “Foi legal”!
Mesmo assim, deu pra encher 17 minutos com muitas respostas pra galera que escreveu.
Espero que continuem escrevendo na Página do Papo:

E, desta vez, sem o Machadinho interferindo!


INTENÇÕES


BOA GENTE, GENTE BOA!

Pois é... Resolvi retomar o blog. Parece meio fora de moda, né? Coisas escritas parecem não fazer muito sucesso na Internet atualmente.
Outro dia, conversando com o Rafael Santi, disse a ele que tinha comprado um livro sobre After Effects e ele achou estranho que eu não preferisse os tutoriais (grátis) do Youtube. Ele achou absurdo eu preferir LER a ouvir e ver alguém explicando em vídeo. Pois é... Devo estar velhinho mesmo.
De qualquer maneira, blog com cara nova, endereço novo, talvez venham novas idéias. Mas já estou esperando por elas há uns três dias. E nada!
Então, fica aqui essa abertura, esse “Boa gente, gente boa, estamos aqui de novo” e um pedido...
ME DÊEM IDÉIAS!!!
O que vocês querem ver em um blog feito por um ator, dublador, diretor, escritor e mais umas coisinhas que a vida me obrigou a aprender a fazer para, no fim, dar o suficiente pro sustento?
Espero estar perguntando pra mais pessoas além das que compõem minha família. Em todo caso, a família também serve.
SUGESTÕES!!!
Fico no aguardo. Enquanto espero, se alguma idéia me ocorrer, eu passo aqui e conto.
Ah, aproveitando, deixo também um jabazinho. Aí do lado estão os links para a compra dos meus dois livros: Versão Brasileira e Espantado. Não se acanhem... Cliquem lá. Comprem lá.

Abraçaços!