quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

ANONIMATO


Certa vez uma amiga, bem intencionada mas não tão bem orientada, se referiu de maneira crítica ao fato de eu divulgar os trabalhos em que estou envolvido, tornando públicos os nomes das pessoas que o realizaram como dubladores, técnicos, tradutores, mixadores, etc.
É preciso explicar alguns detalhes internos quanto a essa divulgação.
Em nosso trabalho há contratos que assinamos com cláusulas sobre a execução, sobre remuneração e, em alguns deles, exigência de confidencialidade. Claro que essa tal confidencialidade se refere a não divulgar o que acontece no filme ou na série, uma proteção contra o que é chamado de SPOILER em português atual (que todos sabem ter origem anglo-saxã).
Gostaria que o paciente leitor tivesse isso em mente: nem todo trabalho que fazemos tem contrato, nem todo contrato tem cláusula de confidencialidade, nem todo contrato que tenha essa cláusula se refere à proibição de um dublador dizer publicamente “Eu dublei o ator Tal”. E, mais importante, esses contratos sempre aparecem semanas depois de termos terminado o trabalho. Ora, todo contrato deve ser, legal e moralmente, cumprido após sua assinatura mas antes de ele sequer aparecer não há nada que obrigue ninguém a cumpri-lo por dedução, por suposição, por alguém achar que o contrato talvez tenha a cláusula X ou Y.
Isso posto, quero lembrar que sempre foi essencial divulgar o trabalho de artistas. Artistas dependem de divulgação sempre. Cantores, escritores, pintores, atores, seja que tipo de artista for. Quando não há o tal contrato, só restou a opinião de algumas pessoas sobre o assunto e ela é tão boa quanto qualquer outra opinião. Acredito que foi aí que minha amiga caiu na orientação equivocada à qual me referi ao me cobrar por divulgar trabalhos meus e de colegas.
Eu sempre vou divulgar tudo o que eu dirigir porque tenho um grande respeito pelo elenco que participa dos trabalhos que fazemos e acho que não basta aquela listinha no fim do filme onde ninguém lê. Todo mundo já sabe, por exemplo, que Paul McCartney vai fazer um tio do Jack Sparrow no próximo Piratas do Caribe. Já sabe tudo sobre os próximos filmes de todos os super-heróis. Já sabe que Christian Bale voltará a ser o Batman. Já sabe que o Doutor de Doctor Who será uma mulher na próxima temporada. De onde saiu a brilhante idéia de que os dubladores devem ficar escondidos? Se me derem um contrato de confidencialidade, vou assinar e obedecer. Caso ele não exista, meu elenco sempre vai estar sob holofotes, que é o lugar de todo artista. Um quadrinho no Facebook ou um comentário no Tweeter nem é um holofote, é uma lanterna. Mas é melhor do que nada.
Na verdade não acredito que qualquer um, enquanto artista, não goste de ver seu nome em destaque nos trabalhos que faz.
Não faz muito sentido um artista sem divulgação!
Obedecer o tal contrato, quando ele existe, é uma obrigação que, por enquanto, temos que cumprir, sem alternativa. Mas apoiar essa idéia, transformá-la em uma coisa boa ou cumprir por antecipação, sem saber sequer se o contrato vai existir, é reduzir artistas de grande talento a uma condição inferior, é levar todos para décadas no passado quando ninguém do público os conhecia, quando não se sabia sequer de sua existência, um retrocesso que só atende a interesses de quem precisa que os artistas permaneçam desconhecidos, pequenos e submissos a imposições.
Concordar com essa idéia e até cobrar sua aplicação não é um sinal de posicionamento ético e de bem proceder. É só falta de posicionamento e inércia sem procedimentos. Ausência de ousadia. E o que mais se espera de um artista é ousadia. A quebra de paradigmas. A simples obediência é um comportamento vacum, um suicídio profissional e artístico.
Um artista anônimo é um artista morto.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

REVENDO O MOMENTO COM SHERLOCK


Assisti novamente à série Sherlock no Netflix. Inteira. Dez episódios de 90 minutos. Pela terceira ou quarta vez. Não há mais surpresas. Não há mais mistérios. Sei todos os crimes, conheço os criminosos, tenho ciência de quando e como fizeram. Praticamente sei as falas de cor. As mais importantes sei mesmo.

Então por que assisti mais uma vez? E por que sei que ainda vou ver de novo? Já sei tudo sobre as deduções e idiossincrasias do Sherlock, a lealdade e a dignidade do Watson, a força e determinação disfarçadas em graciosidade da sra. Hudson, a entrega total e absoluta da Molly Hooper, a confiança e admiração do Greg Lestrade, a genialidade insana do Jim Moriarty. Por que continuo assistindo?
É que agora que já sei tudo isso posso me entregar ao prazer de olhar detalhes de produção, de direção, analisar roteiros, usufruir da interpretação de todo aquele elenco fenomenal da BBC e, acima de tudo, me regozijar com a Dublagem da série!
Nos créditos aparece escrito “Direção de Dublagem: Nelson Machado”. De todos os trabalhos de direção que fiz, nos mais de 30 anos nessa função, esse é o de que tenho mais orgulho! Mas não acho que nesse trabalho a minha função tenha sido exatamente a de Diretor. A palavra nos leva a pensar em uma pessoa no comando absoluto, naquele que dita o que deve ser feito, que dá as ordens, naquele cuja palavra é o regulamento final. E não foi assim que me senti nesse trabalho.
Me senti mais um regente. Um maestro. Alguém à frente de uma orquestra afinada, com músicos da mais alta competência, cada um conhecendo seu instrumento a fundo e tirando dele a melodia mais tocante, o som mais encantador. Basta ao regente pedir. A magia virá de cada um.
Nessa série houve uma entrega de todos tão completa, um prazer em participar da obra tão evidente que as emoções saltam da tela pros nosso ouvidos e nos atingem em cheio da maneira que se previu, sem falhas. “Um artista só não toca a quem de si não abre uma porta”, disse Sílvio Giraldi em uma das suas excelentes músicas. Se o espectador deixar sua porta apenas entreaberta, os Dubladores de Sherlock irão tocá-lo de forma profunda e permanente.
Vilões, vítimas e familiares inesquecíveis dublados por Alessandra Merz, Alna Ferreira, Armando Tiraboschi, Carlinhos Silveira, Cecília Lemes, Fábio Moura, Gabriel Noya, Gilberto Baroli, Leo Caldas, Mara Lídia, Marcelo Pissardini, Márcia Regina, Rosely Gonçalves, Tatiane Keplmair, Teca Pinkovai; parceiros em praticamente todas as aventuras dublados por Cássia Biceglia, Márcio Marconato, Raquel Marinho, Rosana Beltrame, Samira Fernandes, Sérgio Rufino, Thiago Zambrano, Zayra Zordan; e, claro, a dupla principal, Sherlock e Watson com uma dublagem acima e além do cumprimento do dever de Nestor Chiesse e Ricardo Teles somada à maluca e difícil interpretação vocal de André Sauer no maníaco Jim Moriarty. Momentos grandiosos onde as vozes se aliam às imagens de forma tão competente e com tanta sensibilidade que viajamos nas emoções e nos esquecemos de que está dublado.
Trabalhos assim resgatam um pouco do nosso prazer dessa profissão neste momento em que parece que vivemos apenas de queixas, acusações, patrulhamentos, gritos, dedos apontados, um momento em que parece estarmos vendo apenas o que há de errado no mundo, no nosso mundo, nos tornando fiscais, ativistas, policiais, juízes e deixando pouco tempo pra nos lembrarmos de que somos mais do que isso. Somos artistas!
Não há regulamento no mundo que obrigue um elenco a fazer o que fez em Sherlock e em tantas outras produções excepcionalmente bem dubladas que têm aparecido. Apenas o talento, a entrega e a vontade de fazer bem feito leva a esse resultado. Não o dedo acusatório de quem se supõe o inventor e o fiscal do que é certo. Não as ameaças constrangedoras ou o julgamento sumário com execução imediata de quem ainda ontem chamávamos de amigo. Apenas a alma do artista cria a arte. A boa. Aquela que nos atinge. Aquela que guardamos na memória e no coração. A arte que “só não toca a quem de si não abre uma porta”.
Sherlock é um exemplo incontestável dessa arte de Dubladores fabulosos. Eu apenas regi a sinfonia. Eles sabiam o que fazer com seus instrumentos e criaram beleza. Há mais exemplos por aí. Se pararmos de procurar apenas as coisas das quais possamos falar mal e passarmos a aclamar as boas, veremos que estas são em número assombrosamente maior do que aquelas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

GRATIDÃO?

O celular toca, eu atendo e, devido à providencial identificação de chamadas, já sei que não vou ouvir ALÔ.
- Sabe o que me deixa estressado?
- Grande Ascenço! Quanto tempo!
Ascenço, meu velho amigo neurastênico a quem tudo estressa.
- E aí, cumpade? O que anda fazendo?
- Ando me estressando.
- Mas o que tem estressado você? – e, já conhecendo o Ascenço -  Faz um resumo, poucas palavras.
- Pois é. Poucas palavras! Estão ficando cada vez mais poucas!
- Não entendi.
- Você é um homem das palavras! Trabalha com elas! Vive delas! E não está percebendo a extinção delas?
- Bom, tirando NOSOCÔMIO e BELETRISMO, não me ocorre mais nenhuma palavra em extinção. – ainda tentei brincar.
- Vai fazendo piada. Já tivemos a abolição de elogios. Ninguém mais diz que uma coisa é ótima, excelente, boa, bem feita, de qualidade, ninguém diz que alguém é competente, exímio, habilidoso, eficiente, nada mais é genial, inteligente... Tudo isso foi substituído por uma única palavrinha de quatro letras que, convenhamos, antes designava o contrário, uma coisa ruim ou uma situação difícil.
Achei engraçado o Ascenço evitando o uso da palavra FODA, mas ele é meio antiguinho.
- Mas a gente até já conversou sobre isso, Ascenço. Você se estressou de novo pelo mesmo motivo? Está se aprimorando!
- Não! Essa eu já superei. Foi só um exemplo introdutório.
Eu ia comentar sobre a ligação entre a palavra que ele não queria dizer e a idéia de introduções, mas achei melhor não estressar mais o meu amigo.
- Agora tem essa tal de GRATIDÃO!
- Ué... Mas GRATIDÃO não é uma coisa nova, Ascenço, e nem mudou de significado.
- Mas ela está levando as outras à extinção! Temos palavras que deixam claro o estado de espírito de quem recebe favores, gentilezas, apoio e tudo mais. Temos a palavra GRATO, que indica que o camarada se sente gratificado pelo que recebeu. Temos OBRIGADO. Numa posição de humildade, a pessoa se sente com obrigações com quem a favoreceu. Quando um sujeito diz AGRADECIDO, ele abre o coração de forma leve e agradável, deixa claro qual é a sensação criada nele pelo que o outro fez. Até mesmo a mais recente, VALEU, é pessoal. Mostra que o gesto teve valor, que foi benéfico. O que a outra pessoa fez teve alguma validade em sua vida.
- Mas por que você acha que essas palavras estão em extinção?
- Porque ninguém mais usa! Agora só se diz GRATIDÃO! Uma palavra suspensa no ar, um substantivo, não qualifica ninguém, não deixa claro nem quanto a quem sente essa tal gratidão. Ela está lá, solta, existe, pega aí, se você quiser. E não me cobre, nunca! Eu disse que havia gratidão, mas não disse que ela se originava em mim! Acham isso moderninho, esotérico, engajado no pensamento contemporâneo, cósmico, sei lá o quê. Mas eu acho meio impessoal e quase deseducado.
Quando o Ascenço desligou me desejando feliz Ano Novo, tudo o que consegui dizer foi IGUALMENTE. 
Eu não estava sendo formal. Só estava confuso quanto a como agradecer a ele.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O NUNCA-OUVI-FALAR

Ele queria muito aquele trabalho. Aquela profissão era a dos seus sonhos. Muito jovem, cheio de planos, esperanças, ideais, deixou de lado imposições de família, adiou projetos e mergulhou de cabeça naquele mundo no qual ele pretendia viver para sempre.
O começo quase o desanimou. Era difícil entrar naquele meio. Profissionais antigos, bem posicionados, os De-Sempre, torciam o nariz, viravam as costas, não queriam muito envolvimento com ele e com outros como ele, novos, inexperientes, sem treino. O mercado exigia gente treinada e rápida pro trabalho. Era difícil conseguir uma participação. Ele não sabia todas as regras daquele ambiente, estava tentando se familiarizar, tentando se inteirar, se encaixar, se adequar. Tentando ser aceito. E isso era o mais difícil.
- Quem é esse aí?
- Nunca ouvi falar.
- Por que ele está participando do nosso trabalho?
- Deve ser porque faz mais barato do que nós, os De-Sempre.
E, na verdade, isso acontecia mesmo. Ele acabava fazendo pequenos trabalhos, participações desimportantes e o custo do trabalho dele acabava sendo menor. Sem saber ele burlava regras. Mais tarde descobriu que estava transgredindo essa ou aquela norma. Os De-Sempre alegavam com tanta segurança que aquilo era A Lei que ele acreditava. Sem verificar. Sem meios de descobrir. Não era lei nenhuma, era apenas uma norma interna, um combinado, uma praxe, mas ele engolia a afirmação de que era A Lei e pronto.
Com o tempo, aprendendo aqui e ali, ele foi descobrindo que realmente estava passando por cima de uma coisa ou outra. Em cada lugar aonde ele ia exercer seu sonho havia uma transgressão diferente que era condição sine-qua-non para que os Nunca-Ouvi-Falar pudessem estar lá. Com os De-Sempre não se tentavam aquelas pequenas transgressões. Só as grandes. E grandes transgressões não se comentam, não aparecem, um De-Sempre não acusa outro De-Sempre, a irmandade se protege. Mas os Nunca-Ouvi-Falar apareciam. E ele ainda era um Nunca-Ouvi-Falar. Qualquer deslize dele era notícia e motivo para bloqueios.
Mesmo com toda a dificuldade que um Nunca-Ouvi-Falar tem que enfrentar, ele insistiu. Se manteve apegado ao sonho, ele ia pertencer àquele mundo. Sua intenção inicial era simplesmente entrar, participar e ser reconhecido pelo que fizesse. Agora ele já estava mais calejado e sabia que a única maneira segura de se manter no sonho era se tornar um De-Sempre. Mas ele já havia feito coisas que os De-Sempre consideravam pecado mortal. A princípio por ignorância. Depois, por medo de perder a migalha que havia conquistado.
O tempo foi passando e ele, talentoso que era, foi mostrando que podiam arriscar nele, que já havia aprendido ao menos o básico, que poderia alçar voos um pouco maiores. Foi se encaixando, tendo oportunidades.
Dez anos haviam se passado. Ele já tinha deixado de ser oficialmente um Nunca-Ouvi-Falar. Mas os enganos do passado ainda estavam grudados na pele dele, dentro das roupas dele, escorrendo pela grafia do nome dele. Era difícil se livrar daquilo. Os De-Sempre eram implacáveis. E ele ainda sofreu por mais alguns anos os freios rasgando sua boca, as rédeas impedindo seu progresso, as esporas ferindo seu flanco para que ele corresse pra longe. Mas ele resistiu.
Agora mais velho, mais experiente, mais político, mais esperto, mais vivido, ele já tinha aprendido as verdadeiras regras do jogo, já tinha entendido como é que se cometiam os Grandes Pecados em particular e como se recriminavam publicamente os pequenos. Ele já tinha treino profissional para fazer bem o trabalho, já tinha segurança suficiente para encarar desafios, já tinha relacionamentos que bastassem para conseguir chamados e colocações. Mas ele ainda estava no limbo. Ainda não era visto como um De-Sempre.
Um dia ele viu surgirem novas pessoas. Novos jovens com planos, esperanças e ideais. E, claro, com desconhecimentos, com enganos, com erros, com impropriedades. Um desses jovens estava batalhando sua entrada no mercado e alguém perguntou:
- Quem é esse aí?
Instintivamente, ele soltou a resposta esperada:
- Nunca ouvi falar.
Olhares interessados se voltaram para ele. Alguns profissionais que ele passou a vida admirando começaram a desenvolver teorias com ele. Os comentários das pessoas em volta passaram a inclui-lo e sua opinião começou a ser pedida e ouvida. Ele, então, para solidificar o momento, para não deixar a oportunidade escorrer por seus dedos, complementou:
- Deve estar aí porque é baratinho.

Naquele momento ele atingiu o ápice. Tornou-se, imediatamente, um De-Sempre. Dali em diante ele passaria a viver no tão sonhado Olimpo. Mas dentro dele, no mesmo instante, morria um jovem cheio de planos, esperanças e ideais que tinha lutado muito pra se manter à tona por mais de uma década.


(Crônica publicada no e-book O CRONISTA, à venda na Amazon - Veja quadro ao lado)

quarta-feira, 24 de maio de 2017

GORJETA DO GARÇOM

Todo mundo o chama de Luto. Na verdade, ele se chama Anacleto. Muitos não entendem como um cara tão falador e animado tem esse apelido sombrio, mas o Luto do Anacleto não tem nada a ver com morte. É que ele desembesta a falar toda vez que tem uma posição a defender. Com isso, começa uma frase, interpõe outra ideia no meio e volta à ideia original, terminando a frase. Um amigo chato, metido a gramático, uma vez, disse que o nome dele não devia ser Anacleto e sim Anacoluto. Por um período, a coisa pegou, mas apelido que é maior do que o nome não costuma durar muito tempo. O pessoal foi reduzindo, começou a falar só Coluto e, depois de poucas semanas, virou só Luto. E assim ficou pra sempre.
Pois bem. Estávamos em nosso papo altamente politizado, com todos concordando que o país não tinha jeito, que “lá em cima” é todo mundo ladrão, bandido, canalha, trambiqueiro e todos os adjetivos que um grupo consegue levantar em uma mesa quando o garçom, solícito, não para de abastecer com o néctar amarelo da verborragia. O Luto estranhamente quieto. Até que alguém cobrou isso e exigiu, com veemencia apoiada no direito, na razão, na ética e no quinto copo cheio, que o Luto se manifestasse.
- Eu não acho, já que vocês insistem na minha opinião, que a coisa seja assim tão feia, acho feia mas nem tanto, quanto querem que seja.
Depois de tonitruantes protestos e de uma bandeja com um resto de batatas fritas virada na mesa por mãos esbravejantes, o Luto prosseguiu:
- Pra mim, vocês falam de corrupção, propina e tudo isso aí, esse papo é como gorjeta pro garçom. Se o garçom atende bem, é simpático, se o pessoal gosta dele, no final, depois de pagar a conta, a gente gostou do cara, curtiu até as piadas dele,  rola uma gorjetinha por fora. O garçom fica feliz, o nosso, aqui, sempre fica, e, na próxima vez que a gente vem, a gente vem ao mesmo lugar com frequencia, ele atende melhor ainda e leva outra gorjeta. Isso é normal e não tem nada de criminoso. Certo?
Todos concordaram. O Luto surpreendeu com outra resposta:
- Errado! Se alguém quiser, pode levantar o ponto de vista de que a gorjeta não é contabilizada pelo estabelecimento, alguém pode alegar isso,  nem vai ser declarada pra Receita como renda do garçom. E pode-se dizer que, em troca desse dinheiro “por fora” o garçom favorece quem dá a melhor gorjeta, mesmo nós já demos a mais, atendendo melhor. Percebem? Basta usar as palavras certas e uma gorjeta pro garçom vira vários crimes, uma coisa pode virar crime sem ter sido vista assim antes, contra a Receita Federal, contra o direito de bom atendimento de uma clientela, contra o faturamento do restaurante, contra a igualdade entre garçons, profissionais que exercem exatamente a mesma função... Os garçons todos se tornam corruptos e os clientes todos, argumentos e provas não vão faltar, se tornam corruptores. Investigações serão iniciadas e só irão parar quando todos os garçons forem presos, prender malfeitor é o que todo mundo quer, e todos os clientes forem responsabilizados. Por uma coisa que ninguém estava fazendo como crime, todo mundo acha que é um estímulo normal a gorjeta, uma coisa que todos concordavam que era assim que se fazia. Tanto que todo mundo fazia! É assim que eu, não estou querendo impor, vejo essa história de políticos. Política sempre se fez assim, no Brasil e no mundo, hoje e na antiguidade. É bonito? Não! É certo? Acho que não! É decente? Duvido! Mas são criminosos e formam quadrilhas altamente mal-intencionadas? Não garanto! Afinal, em proporções gigantescas, estavam só levando a gorjeta do garçom.
Já estava na hora de todos irem embora e ninguém quis desenvolver a discussão com o Luto. Pedimos a conta, pagamos e nos despedimos amigavelmente, marcando outro papo pra semana seguinte. Mas o nosso garçom achou muito esquisito o fato de, desta vez, ninguém ter deixado a gorjeta dele. Por via das dúvidas.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

MINHA MÃE

Meu pai decretou: Homem que é homem é culto, inteligente
e bem informado, sempre atualizado.
Minha mãe me ensinou a ler aos cinco anos. Quando completei seis, tentou me matricular numa escola pública e não fui aceito por não ter os sete anos exigidos. Ela pesquisou até encontrar uma escola particular que me aceitasse. Era uma escola próxima da nossa casa, no bairro do Macuco, em Santos. Mas, poucos meses depois, nos mudamos. Pra outra cidade! Pra Vicente de Carvalho, que, na época, ainda chamávamos de Itapema. Não dava pra eu ir àquela escola todos os dias. Era longe demais. Envolvia até uma viagem de catraia, um pequeno barco a motor que ainda hoje é usado em travessias na baixada santista. Minha mãe fez um acordo com a escola. Eu iria uma vez por mês pra fazer uma avaliação. Mas como eu aprenderia o necessário pra essa avaliação? Minha mãe pegava o currículo do mês e me dava aulas em casa. Todos os dias! Com horário normal de aula! Passei pro segundo ano com nota excelente. E sabendo ler muito bem. Meu pai achava que ler era importante. Meu tio, o falecido Zé Vieira, trazia muita coisa pra eu ler. Mas minha mãe foi quem me deu os meios necessários para que eu pudesse fazer isso, com gosto, pelo resto da vida.
Meu pai exigiu: Homem que é homem não depende de ninguém. É auto-suficiente!
Minha mãe, quando eu tinha uns oito ou nove anos, insistia pra que eu fizesse trabalhos caseiros, todos os dias. Eu ficava irritadíssimo! Enquanto os outros moleques estavam brincando de mocinho, empinando pipas, jogando bola, taco ou espeto, eu estava vendo como se fazia arroz, estendendo um lençol na minha cama, lavando louça, colocando fronha em travesseiro, enxugando pratos, varrendo a sala, passando pano no chão da cozinha, descascando batatas, fritando ovos, temperando bifes. Claro que isso tomava apenas uma ou duas horas do dia, mas pra mim parecia toda uma vida! Na verdade, ela até refazia as coisas depois. A intenção não era usar meu trabalho. Só muito mais tarde, quando me vi distante, sozinho e por minha conta, é que percebi o valor do que tinha aprendido. Vi que sabia mais sobre organização de uma casa e preparação do meu alimento do que imaginava. Meu pai me incutiu o orgulho da não dependência. Mas minha mãe foi quem me deu o conhecimento das coisas práticas pra que eu pudesse manter esse orgulho.
Meu pai determinou: Homem que é homem tem que ter uma profissão, um trabalho digno que ele faça muito bem feito, no qual ele seja, senão o melhor, um dos melhores.
Minha mãe, quando eu estava com mais ou menos doze anos, me apresentou um mundo profissional do qual eu nunca me separaria. Ela me ensinou os caminhos, com palavras ou apenas vivendo. Deixou clara a necessidade da pluralidade no ramo do qual vivia, dublando um filme hoje, fazendo uma novela na TV no dia seguinte, um espetáculo infantil no fim de semana, escrevendo e apresentando programas de rádio todas as noites. Meu pai exigiu de mim a dignidade de uma profissão na qual eu fosse bom. Minha mãe não só me deu essa profissão, que na verdade é mais de uma, como me mostrou como exercê-la bem e como ser respeitado nela.
Meu pai vaticinou: Homem que é homem constrói uma boa família e faz tudo por ela.
Minha mãe já tinha dado todas as ferramentas necessárias pra isso. A profissão com a qual manter a família, o apego aos componentes da família que faz com que se sacrifique qualquer coisa em nome dela, o amor que faz com que nunca pareça sacrifício, os paparicos compráveis como brinquedos, doces, roupas especiais, passeios, e os executáveis como um cheiroso, bonito e delicioso jantar.
Meu pai me disse como é um homem que é homem.
Minha mãe me ensinou a me tornar um. Passo a passo. Ano a ano. Pro resto da vida!
Dá pra homenagear uma mãe assim? Impossível! Nada seria suficiente. Só dá pra agradecer.

Valeu, mãe! Se você, alguma vez, já se sentiu amada por seus filhos e pelos descendentes deles, tenha certeza de uma coisa: é o mínimo que todos podemos fazer!

(Trecho do e-book O CRONISTA, à venda na Amazon)



quinta-feira, 30 de março de 2017

DAR CERTO

        Uma vez comentei com um colega bem mais jovem que minha vida tinha dado certo. Ele, em vez de perguntar o habitual “Deu certo como?”, numa tradução literal dos filmes juvenis americanos que viu, pediu em português:
        - Defina “dar certo”.
        Comecei a enumerar as coisas que me deixavam feliz.
        Tenho 63 anos e me sinto saudável. Tomo minha cerveja, fumo meu cigarrinho e não estou com nenhum dos males normalmente atribuídos a essas práticas.
        Vivo da profissão que escolhi há quarenta e nove anos e ainda gosto do que faço. Me divirto fazendo.
        Estou numa boa posição profissional, agraciado com o respeito dos que importam, alvo de um pouco de inveja dos que não fazem muita diferença e a possibilidade de exercer o que faço aplicando tudo o que aprendi e pratiquei na vida com a liberdade de fazer como e quando quero.
        Tive a oportunidade de interpretar personagens fabulosos em teatro, em rádio, em TV e, principalmente, em dublagem de filmes e desenhos. De muitos deles tenho grande orgulho, de alguns tenho até ciúme, outros ficaram comigo e em mim para o resto da vida.
        Escrevi três livros que não venderam muito mas venderam. Ainda vendem.
        Tenho café da manhã, almoço, café da tarde e jantar todos os dias. Nem sempre faço todas as refeições, mas não é por não ter condições e sim por decisão ou por querer ganhar tempo pra outra atividade qualquer.
        Moro em um apartamento alugado. Poderia ter comprado um imóvel no decorrer da vida, mas continuei com aluguéis e ainda vivo assim sem grandes dores.
        Depois de algumas tentativas frustradas mas que foram me dando experiência e calejando o espírito, me casei com a mulher com quem continuo casado há trinta e quatro anos. Tenho três filhas adultas saudáveis, inteligentes, personalidades definidas, com quem divido prazeres, dores, alegrias, problemas, enfim, a vida. Essa filhas me deram seis netos com os quais vou dividindo paixão e babação de acordo com a época e com o momento e aos quais dedico cuidados de acordo com a necessidade.
        Tive muitos amigos. Hoje tenho poucos, só ficaram por perto os melhores. Alguns muito antigos, outros bem recentes. Mas os melhores.
        Vivi por bastante tempo, o que me deu calma pra minimizar alguns exageros, sabedoria pra encarar alguns problemas, compreensão e aceitação pra perdoar alguns defeitos dos outros e meus, tranquilidade de alma pra aproveitar o tempo em que ainda estarei por aqui.
        Enfim, acho que minha vida deu certo.
        Meu colega bem mais jovem sentiu vontade de demonstrar que eu não estava rico, que eu não tinha ido duas ou três vezes pra Nova Iorque, que eu não tinha o carro do ano, que eu não tinha ido estudar alemão em Berlim, que eu não conhecia Dubai, que eu não era um astro internacional sendo requisitado por Hollywwod ou mesmo um nacional procurado pela Globo. Eu sei que ele queria dizer tudo isso, mas se limitou a comentar:
        - Muito romântico.
        Eu já disse que ele era bem mais jovem, não? Mesmo assim, ou por isso mesmo, não consegui evitar um pensamento de velhinho: “Pobre geração”.