domingo, 1 de abril de 2018

PÁSCOA


Festa cristã. Não sou lá muito cristão, embora, sendo brasileiro, tenha uma formação compulsória mais ou menos baseada no cristianismo. Por aqui, todos sabemos, até ateu diz “Graças a Deus”, curte um presente de Natal e adora um ovinho de chocolate na Páscoa. Sem contar o fato de que ninguém se queixa dos feriados prolongados que o laicismo de mentirinha proporciona a todos nós.
Mas mesmo sem ser um praticante, culturalmente sei de datas, fatos, histórias, lendas. E me pego pensando em coisas ligadas a tudo isso durante o tríduo Endoenças-Aleluia-Páscoa.
Época de renovação. Época de revitalização, palavra com significado óbvio de reviver, ressuscitar, fazer voltar a vida perdida e voltar à vida quem a perdeu. Simbólico, claro. Ninguém vai sair por aí levantando mortos e criando um apocalipse zumbi. Mas é possível revitalizar tantas outras coisas!
Na semiótica da chamada Semana Santa temos uma ordem das coisas. Primeiro Endoenças, período de indulgência, de perdão, de limpeza de desavenças passadas. Em seguida Aleluia, dia de alegria, de cânticos e glorificações pelo ressurgimento que há de vir, seja do que for. Mesmo que a cultura popular tenha convertido esse dia em simplesmente “Dia de Malhar o Judas”. E, finalmente a Páscoa, o dia da ressurreição, dia em que tudo se renova, revitaliza, revigora, ressurge para reiniciar direito, talvez desta vez dê certo, quem sabe começando de outro jeito a gente faça funcionar. Seja o que for.
Neste momento penso se não devíamos aplicar essas ideias em qualquer coisa. Se o caminho para que algumas coisas se acertem não passa exatamente por aí.
Por exemplo.
Tenho uma ideia do que é certo. Arrebanho um grupo que compartilha das minhas convicções e das minhas intenções. Começamos a botar em prática o que achamos certo. Com isso assumimos um comando que até o momento ninguém tinha, uma vaga a ser preenchida na elaboração do Certo. Mas todo mundo sabe que não existe O Certo. Quando muito existe UM Certo. O meu é um. Outras pessoas podem não achar que o meu certo seja O Certo. Não são pessoas más. Não são pessoas vis. Não são menos do que eu. Só pensam de maneira diferente. Mas eu estou no comando. Eu e meu grupo temos certeza de que sabemos qual é o único Certo e consideramos qualquer oposição uma afronta não a nós mas ao Certo. Uma ilegitimidade. E isso não pode continuar. Começamos a penalizar os opositores. Eles, por sua vez, se achando certos, mas sem o poder de comando do meu grupo, sentem que só lhes resta a guerrilha, minar o grupo oposto, reclamar, xingar, fazer oposição velada pra não sofrer consequências. Meu grupo, por sua vez, se sente ultrajado por estar sendo traiçoeiramente difamado por gente que não quer que O Certo vença. E essa batalha subterrânea pode durar anos, décadas!
É aí que entra meu pensamento no tríduo. Endoenças, ou seja, Indulgência. Bom período pra todos pensarem em serem mais indulgentes. De todos os lados. O grupo opositor pode exercer essa indulgência apagando mágoas, deixando de lado pequenas ofensas, esquecendo que o outrora amigo fez isso ou aquilo com ele. O amigo não fez com ele. Fez em nome de um Certo que ele acredita ser único. O meu grupo hipotético, o do comando, pode se mostrar indulgente com uma atitude grandiosa que pode até ficar bonita na foto final: anistia! Afinal, tudo saiu como eu encaminhei, o grupo que se opunha a mim e que agiu de um jeito que eu tinha decretado que era O Errado não prejudicou nada, não impediu nada, não evitou o final. O Poder exercido pra ajudar, pra dar a mão, pra elevar é mais respeitado do que o poder exercido pra massacrar, castigar, devastar.
Mágoas esquecidas, supostos males anistiados, acabou o período de Endoenças. Podemos entrar em tempo de Aleluia, festivo, com todos participando da festa pra, em seguida, começarmos uma Páscoa, uma renovação, uma ficha limpa pra ser preenchida por todos e cada um com novas atitudes. Novos acertos e novos erros. Mas que seja tudo novo!
Ressurreição já!

segunda-feira, 19 de março de 2018

GENERAIS


Em toda situação do mundo, seja qual for o setor, militar ou não, existem os Generais e os soldados.
Generais em suas belas fardas, bem colocados e bem posicionados na hierarquia, com suas lutas próprias e seus motivos, envolvem, motivam e mobilizam jovens soldados que nem sempre têm a mesma luta ou os mesmos motivos. Envolvem, motivam e mobilizam com discursos sobre vitórias e glórias. Caso esses não envolvam, não motivem nem mobilizem, usam ameaças de corte marcial.
Os Generais garantem aos jovens soldados que a guerra será curta, vai durar apenas poucos dias. Eles têm certeza de que o inimigo irá se render rápido.
Claro, os Generais, mesmo cientes disso, não informam aos soldados que o inimigo tem mais munição, tem abrigos melhores, tem água e comida pra aguentar alguns meses de guerra. Os jovens soldados não avaliam que só têm um cantil e algumas barras de chocolate na mochila. E a maioria deles nem conseguiu essas coisas com os Generais.
Os Generais ficam em seus gabinetes e soldados vão pra frente de batalha. Muitos morrem, muitos são mutilados, alguns sobrevivem, todos dão a vitória aos Generais.
Os Generais, finalmente, ocupam o território e assumem os postos que pretendiam. Desfilam em carro aberto. Comemoram uma vitória que talvez não esteja sendo sentida por aquele jovem sem um braço que sabe que, agora, vai ser difícil arrumar emprego.
Mas os Generais prometeram que a glória da vitória recairia sobre todos os que tivessem lutado.
Alguém já ouviu falar que, em qualquer momento da História, os soldados sobreviventes, inteiros ou mutilados, tenham realmente sido convidados a participar das glórias dos Generais?
Generais têm muitos amigos. Nenhum deles soldado raso.
Por outro lado, pode-se achar que não é bom ser General vitorioso em terra devastada e vazia. Os Generais não estão preocupados com isso. Se a região ocupada for totalmente destruída, eles têm a promessa de outra região na qual serão recebidos como Generais heróicos que venceram mas foram penalizados por isso.
No fim, Generais são apenas velhos soldados que ficaram tempo demais ali até serem promovidos. Mas continuam tolinhos do jeitinho que eram quando se alistaram.
Tardiamente vão descobrir que outros exércitos também têm Generais. E eles não precisam de heróis externos. Eles são os próprios heróis.
Enfim, toda guerra é inútil, como a História já cansou de mostrar. Não há vitórias. Não há glórias. Quando muito há discursos. E gente triste, decepcionada, amargurada... ou morta.

sexta-feira, 9 de março de 2018

MENTIRINHAS!


Aí o cara diz: “Não concordo com nada do que você pensa. Mas tenho muito respeito por você”.
Mentirinha!
Ora, se um indivíduo não concorda com outro é porque acha que o outro está errado. Se o outro está errado, com certeza o que ele está dizendo é uma bobagem frente ao que o primeiro acha que é o certo. E como é que alguém, em sã consciência, respeita uma pessoa que está sempre errada e só diz bobagens?
Ele faz seu número de alta nobreza e complacência com alguém que julga inferior, já que diz coisas erradas na frente dele, logo Dele, que sabe quais são as coisas certas. Ele alega respeito.
Mentirinha!
Em seguida, sem dúvida, ele vai pra junto dos seus, aqueles que compartilham de sua segurança de que detém todas as respostas e que, como já dizia a antiga personagem, só abre a boca quando tem certeza. Afinal, isso é natural em todos nós. Não faria sentido convivermos o tempo todo com gente que discorda, com antagonistas. Adoramos fazer o discurso de que o bom é a multiplicidade de idéias, de que acreditamos que da discussão nasce a luz.
Mentirinha!
Só formamos grupos, tribos, turmas, redes sociais com pessoas que pensem exatamente do jeito que pensamos. Ou que, pelo menos, aleguem isso. Melhor ainda quando dizem que pensam o que pensamos não porque realmente pensam daquele jeito mas porque estão convencidas de que o que pensamos é que é bom.
Ele vai pra junto dos seus, dizia eu. E lá, claro, vai comentar o encontro com o outro, vai contar como o outro estava enganado, o quanto tentou fazer com que o pobre coitado visse a luz, vai detalhar o tanto que se esforçou para que o infeliz se bandeasse para o lado Bom, que, claro, é o dele e o dos seus. Todos vão fazer cara de admiração por sua abnegação sacerdotal e depois vão balançar a cabeça compungidos pelo pobre coitado que não viu o caminho do Bem. Eliminando palavras escolhidas a dedo, o que vai acontecer ali é a boa e velha fofoca sobre o outro. E ninguém faz fofoca sobre alguém a quem se respeita.
Mentirinha!
Na verdade o nobre encaminhador de almas já conseguiu algum poder, nem que seja apenas moral e, querendo ou não, assusta a pelo menos metade dos seus ouvintes. Eles têm receio de discordar do portador do archote, não querem ser vistos como antagonistas de alma tão nobre e dedicada que leva todos pela mão em direção à Iluminação. Mesmo uns poucos que começam a pensar que ele talvez seja apenas um pavão, lindas penas, pouco corpo e, lá embaixo, pés horrendos, mesmo esses evitam atritos. Pensam para si e se calam. E fazem a mesma cara de admiração que os admiradores de verdade fazem.
Mentirinha!
De mentirinha em mentirinha vamos tecendo nossa sociedade. No fundo, é assim mesmo que tem que ser. Se todos dissessem só verdades talvez não houvesse mais muita gente viva pra discutir fome, veganismo, preconceitos, futebol ou ética.
Mas minha dose de mentiras a serem ditas ou a serem mentirosamente aceitas não inclui o cara que diz que “me respeita”. Esse, pra mim, exagera. Quem discorda de mim, por favor, da próxima vez que me encontrar, só discorde. Não declare respeito. Não venha com Voltaire. Voltaire, como todos nós, era um homem, um humano, portanto, um mentiroso. Ninguém defende de verdade o direito de outra pessoa dizer coisas com as quais não se concorda. E nem foi Voltaire quem escreveu isso e sim uma biógrafa dele, outra mentirinha. De qualquer maneira, a frase é vazia. Se não concordamos é porque achamos que está errado. Se está errado, é um mal. Se é um mal, como se pode defender o direito de alguém fazer apologia ao mal?
Mentirinha!

sábado, 3 de março de 2018

O CERTO É CERTO?


Ultimamente tem surgido com uma certa insistência nas redes da vida uma frase atribuída a Gilbert Chesterton:
“O certo é certo, mesmo que ninguém o faça. O errado é errado, mesmo que todos se enganem sobre ele”.
Às vezes, quem posta a frase altera uma palavra ou outra, de acordo com a conveniência do que se pretende cobrar ou de quem se quer acusar, mas, em síntese, é isso.
Parece um lindo pensamento, uma idéia a ser seguida à risca por quem pretende ser visto como um ser humano repleto de retidão e princípios morais e éticos.
Só que (aqui pra nós, que ninguém nos leia) as afirmações não têm realmente nenhum significado. Errado e Certo são só convenções que variam de acordo com a época, com o local, com o uso.
Há poucas décadas, a Lei exigia que se pedisse um alvará, uma autorização pra qualquer reunião com mais de cinco pessoas. Numa casa com pai, mãe e duas crianças, se quisessem fazer um bolinho de aniversário pra um dos filhos não havia nenhum problema. Mas se convidassem o tio e a tia do garoto, tinham que pedir alvará porque já haveria seis pessoas. Isso era o regulamento, era a Lei, portanto, era o Certo! Mas a população começou a não ligar pra isso. Ninguém pedia alvará nenhum. Não dava pra prender todo mundo do país inteiro. Mudou-se o Certo! Agora o Certo passou a ser façam sua festa aí sem pedir pra ninguém. Liberdade passou a ser o Certo. Até surgirem os Pancadões! Aí a Liberdade de reuniões passou a não ser tão certo assim.
Um dia foi muito Errado as mulheres exibirem mais do que suas mãos e seus tornozelos em público. Nem mesmo o formato do corpo em exibição, ainda que coberto, era aceitável. Sofri um acidente aos seis anos e minha mãe foi impedida de entrar numa Santa Casa pra me acompanhar porque estava, indecentemente, usando calças compridas. Isso era Errado. Aí as mulheres queimaram sutiãs, vestiram minissaias, fizeram movimentos, expuseram os seios nas ruas, meu-corpo-minhas-regras e não teve jeito: mudou-se o Errado. Agora o Errado é cobrir demais o corpo com alguma coisa que não seja tatuagem.
Portanto, a vida mostra que o Chesterton era bom de frases de efeito cuja utilidade era fazer o citante parecer muito culto ou muito digno nos bares boêmios e, hoje em dia, na redes. Mas o próprio Chesterton disse: “Devo o meu sucesso a ouvir respeitosamente os melhores conselhos e depois fazer o contrário.”
A História mostra que o contrário é mais razoável. Quando muita gente insiste em fazer o que até aquele momento era considerado Errado, a única saída é fazer com que se torne Certo. O Certo é o que a maioria quer, o Errado é o que a maioria evita. Está aí a descriminalização da maconha pra provar isso.
O Certo não é permanente e o Errado não é eterno.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

INVEJAS


O velho está sentado perto da janela aberta. Segundo andar, frente pra rua. Cachimbo aceso, olhando o movimento da rua, nada pra fazer. Perna direita com uma leve infecção que não tem grandes consequências mas o impede de andar por alguns dias. Portanto, não pode ir trabalhar. Não há nada a fazer, a não ser tomar um “sol de janela” como ele costuma dizer. Lá na rua passa um rapaz em uma bicicleta e cria uma leve inveja no velho. Ele adoraria poder descer e pedalar um pouco. Mas não pode mover a perna.
O ciclista, ao passar, olha pra cima e vê aquele homem sentado à janela, com um cachimbo aceso na boca, um ar de vida ganha. Fica com uma leve inveja, já que está rodando com aquela bicicleta desde a parte da manhã, fazendo entregas pra padaria para a qual trabalha. Adoraria poder ficar sentado à janela em uma tarde de um dia de semana, sem nada pra fazer.
O sem-teto vem passando pela rua, descalço, com um saco às costas, dentro do qual há latinhas vazias, pedaços de papelão, diversos materiais que, mais tarde, ele irá transformar em alguns trocados com os quais talvez coma alguma coisa. Sente uma enorme inveja do rapaz de bicicleta, arrumadinho, de tênis, despreocupado, olhando pra cima. O sem-teto olha pra onde o rapaz está olhando e vê o velho de cachimbo. Sente uma inveja maior ainda daquele homem que tem uma casa na janela da qual ficar.
O menino de seis anos que acaba de sair da escola, vem pela calçada de mão dada com a mãe. Vê todas aquelas pessoas na rua, vê o velho na janela e, mesmo não sabendo ainda que nome dar, sente uma pequena inveja de todos os que estão livres pra fazerem o que quiserem, sem terem que ir pra escola, sem terem que fazer lição de casa, sem terem que obedecer mães. Gente grande não obedece ninguém.
O sem-teto, devido ao peso do saco que carrega tropeça e cambaleia em direção à calçada. Quase cai em cima do menino que grita assustado. A mãe puxa o menino e os dois acabam indo parar no meio da rua. O menino se agarra à mãe e enfia o rosto no peito dela, com medo de olhar. O ciclista desvia da mãe e da criança mas acaba esbarrando no sem-teto que o empurra fazendo com que caia do veículo. A mãe se afasta de tudo levando o filho com o rosto ainda escondido nela, o ciclista discute com o sem-teto que se levanta e não dá corda, simplesmente vai embora. O ciclista volta pra bicicleta, dobra a esquina e desaparece. O menino, antes de ir parar na calçada oposta ainda bem assustado, dá uma olhada pra cima e vê o velho fechando a janela dando uma última baforada no cachimbo. Olha pra trás e não vê mais ninguém. Apenas a rua vazia.
O velho comenta com a família que um bêbado arrumou encrenca com um daqueles moleques que não fazem nada na vida e passam o dia andando de bicicleta.
O sem-teto para na esquina seguinte angustiado por não ter tido coragem de discutir com o mauricinho de bicicleta. Mas o que ele poderia fazer? O moleque devia ser filhinho de papai e podia fazer com que ele ainda fosse parar na cadeia só por ter tropeçado.
O ciclista só está preocupado em voltar logo pra padaria e fazer outras entregas, não tem tempo a perder com nóias chapados de crack.
O menino passou muitos dias contando sua grande aventura pros amiguinhos na escola. Estava voltando pra casa com a mãe quando foi atacado pelo homem do saco em pessoa! A mãe, que é poderosa, o salvou na hora em que o homem ia colocá-lo dentro do saco. Um moço de bicicleta bateu no monstro e ele já ia levar o moço com bicileta e tudo mas um velho bruxo que estava numa janela ali perto, soltou fumaça do cachimbo e fez os dois desaparecerem pra sempre!
Por alguns dias, o menino foi alvo da inveja de toda a turma!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

ANONIMATO


Certa vez uma amiga, bem intencionada mas não tão bem orientada, se referiu de maneira crítica ao fato de eu divulgar os trabalhos em que estou envolvido, tornando públicos os nomes das pessoas que o realizaram como dubladores, técnicos, tradutores, mixadores, etc.
É preciso explicar alguns detalhes internos quanto a essa divulgação.
Em nosso trabalho há contratos que assinamos com cláusulas sobre a execução, sobre remuneração e, em alguns deles, exigência de confidencialidade. Claro que essa tal confidencialidade se refere a não divulgar o que acontece no filme ou na série, uma proteção contra o que é chamado de SPOILER em português atual (que todos sabem ter origem anglo-saxã).
Gostaria que o paciente leitor tivesse isso em mente: nem todo trabalho que fazemos tem contrato, nem todo contrato tem cláusula de confidencialidade, nem todo contrato que tenha essa cláusula se refere à proibição de um dublador dizer publicamente “Eu dublei o ator Tal”. E, mais importante, esses contratos sempre aparecem semanas depois de termos terminado o trabalho. Ora, todo contrato deve ser, legal e moralmente, cumprido após sua assinatura mas antes de ele sequer aparecer não há nada que obrigue ninguém a cumpri-lo por dedução, por suposição, por alguém achar que o contrato talvez tenha a cláusula X ou Y.
Isso posto, quero lembrar que sempre foi essencial divulgar o trabalho de artistas. Artistas dependem de divulgação sempre. Cantores, escritores, pintores, atores, seja que tipo de artista for. Quando não há o tal contrato, só restou a opinião de algumas pessoas sobre o assunto e ela é tão boa quanto qualquer outra opinião. Acredito que foi aí que minha amiga caiu na orientação equivocada à qual me referi ao me cobrar por divulgar trabalhos meus e de colegas.
Eu sempre vou divulgar tudo o que eu dirigir porque tenho um grande respeito pelo elenco que participa dos trabalhos que fazemos e acho que não basta aquela listinha no fim do filme onde ninguém lê. Todo mundo já sabe, por exemplo, que Paul McCartney vai fazer um tio do Jack Sparrow no próximo Piratas do Caribe. Já sabe tudo sobre os próximos filmes de todos os super-heróis. Já sabe que Christian Bale voltará a ser o Batman. Já sabe que o Doutor de Doctor Who será uma mulher na próxima temporada. De onde saiu a brilhante idéia de que os dubladores devem ficar escondidos? Se me derem um contrato de confidencialidade, vou assinar e obedecer. Caso ele não exista, meu elenco sempre vai estar sob holofotes, que é o lugar de todo artista. Um quadrinho no Facebook ou um comentário no Tweeter nem é um holofote, é uma lanterna. Mas é melhor do que nada.
Na verdade não acredito que qualquer um, enquanto artista, não goste de ver seu nome em destaque nos trabalhos que faz.
Não faz muito sentido um artista sem divulgação!
Obedecer o tal contrato, quando ele existe, é uma obrigação que, por enquanto, temos que cumprir, sem alternativa. Mas apoiar essa idéia, transformá-la em uma coisa boa ou cumprir por antecipação, sem saber sequer se o contrato vai existir, é reduzir artistas de grande talento a uma condição inferior, é levar todos para décadas no passado quando ninguém do público os conhecia, quando não se sabia sequer de sua existência, um retrocesso que só atende a interesses de quem precisa que os artistas permaneçam desconhecidos, pequenos e submissos a imposições.
Concordar com essa idéia e até cobrar sua aplicação não é um sinal de posicionamento ético e de bem proceder. É só falta de posicionamento e inércia sem procedimentos. Ausência de ousadia. E o que mais se espera de um artista é ousadia. A quebra de paradigmas. A simples obediência é um comportamento vacum, um suicídio profissional e artístico.
Um artista anônimo é um artista morto.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

REVENDO O MOMENTO COM SHERLOCK


Assisti novamente à série Sherlock no Netflix. Inteira. Dez episódios de 90 minutos. Pela terceira ou quarta vez. Não há mais surpresas. Não há mais mistérios. Sei todos os crimes, conheço os criminosos, tenho ciência de quando e como fizeram. Praticamente sei as falas de cor. As mais importantes sei mesmo.

Então por que assisti mais uma vez? E por que sei que ainda vou ver de novo? Já sei tudo sobre as deduções e idiossincrasias do Sherlock, a lealdade e a dignidade do Watson, a força e determinação disfarçadas em graciosidade da sra. Hudson, a entrega total e absoluta da Molly Hooper, a confiança e admiração do Greg Lestrade, a genialidade insana do Jim Moriarty. Por que continuo assistindo?
É que agora que já sei tudo isso posso me entregar ao prazer de olhar detalhes de produção, de direção, analisar roteiros, usufruir da interpretação de todo aquele elenco fenomenal da BBC e, acima de tudo, me regozijar com a Dublagem da série!
Nos créditos aparece escrito “Direção de Dublagem: Nelson Machado”. De todos os trabalhos de direção que fiz, nos mais de 30 anos nessa função, esse é o de que tenho mais orgulho! Mas não acho que nesse trabalho a minha função tenha sido exatamente a de Diretor. A palavra nos leva a pensar em uma pessoa no comando absoluto, naquele que dita o que deve ser feito, que dá as ordens, naquele cuja palavra é o regulamento final. E não foi assim que me senti nesse trabalho.
Me senti mais um regente. Um maestro. Alguém à frente de uma orquestra afinada, com músicos da mais alta competência, cada um conhecendo seu instrumento a fundo e tirando dele a melodia mais tocante, o som mais encantador. Basta ao regente pedir. A magia virá de cada um.
Nessa série houve uma entrega de todos tão completa, um prazer em participar da obra tão evidente que as emoções saltam da tela pros nosso ouvidos e nos atingem em cheio da maneira que se previu, sem falhas. “Um artista só não toca a quem de si não abre uma porta”, disse Sílvio Giraldi em uma das suas excelentes músicas. Se o espectador deixar sua porta apenas entreaberta, os Dubladores de Sherlock irão tocá-lo de forma profunda e permanente.
Vilões, vítimas e familiares inesquecíveis dublados por Alessandra Merz, Alna Ferreira, Armando Tiraboschi, Carlinhos Silveira, Cecília Lemes, Fábio Moura, Gabriel Noya, Gilberto Baroli, Leo Caldas, Mara Lídia, Marcelo Pissardini, Márcia Regina, Rosely Gonçalves, Tatiane Keplmair, Teca Pinkovai; parceiros em praticamente todas as aventuras dublados por Cássia Biceglia, Márcio Marconato, Raquel Marinho, Rosana Beltrame, Samira Fernandes, Sérgio Rufino, Thiago Zambrano, Zayra Zordan; e, claro, a dupla principal, Sherlock e Watson com uma dublagem acima e além do cumprimento do dever de Nestor Chiesse e Ricardo Teles somada à maluca e difícil interpretação vocal de André Sauer no maníaco Jim Moriarty. Momentos grandiosos onde as vozes se aliam às imagens de forma tão competente e com tanta sensibilidade que viajamos nas emoções e nos esquecemos de que está dublado.
Trabalhos assim resgatam um pouco do nosso prazer dessa profissão neste momento em que parece que vivemos apenas de queixas, acusações, patrulhamentos, gritos, dedos apontados, um momento em que parece estarmos vendo apenas o que há de errado no mundo, no nosso mundo, nos tornando fiscais, ativistas, policiais, juízes e deixando pouco tempo pra nos lembrarmos de que somos mais do que isso. Somos artistas!
Não há regulamento no mundo que obrigue um elenco a fazer o que fez em Sherlock e em tantas outras produções excepcionalmente bem dubladas que têm aparecido. Apenas o talento, a entrega e a vontade de fazer bem feito leva a esse resultado. Não o dedo acusatório de quem se supõe o inventor e o fiscal do que é certo. Não as ameaças constrangedoras ou o julgamento sumário com execução imediata de quem ainda ontem chamávamos de amigo. Apenas a alma do artista cria a arte. A boa. Aquela que nos atinge. Aquela que guardamos na memória e no coração. A arte que “só não toca a quem de si não abre uma porta”.
Sherlock é um exemplo incontestável dessa arte de Dubladores fabulosos. Eu apenas regi a sinfonia. Eles sabiam o que fazer com seus instrumentos e criaram beleza. Há mais exemplos por aí. Se pararmos de procurar apenas as coisas das quais possamos falar mal e passarmos a aclamar as boas, veremos que estas são em número assombrosamente maior do que aquelas.